sábado, 23 de dezembro de 2017

De quem é a Mercedes?

O cara rala, trabalha sem parar por décadas, e enfim consegue o que sempre sonhou: uma Mercedes conversível. Mas na correria do dia a dia, a bela Mercedes fica 90% dos dias parada na garagem da empresa, cuidadosamente coberta com um tecido personalizado para que se conserve.
Para que mesmo ele queria comprar a Mercedes? Para que gastar centenas de milhares de reais para deixar parado em uma garagem a maior parte do tempo?
Bom, o cara pode não se aproveitar da Mercedes que ele sempre sonhou. Mas alguém se aproveita diariamente, quase o dia todo. Alguém dorme quase todo dia em cima da capota. Em dias frios, prefere dormir por baixo, bem protegido. Tem horas que até posa para foto.
É bom sempre entendermos isso: para que queremos uma coisa? É para nós, ou para outro?




O paninho de natal

Muitos se preocupam porque não tem dinheiro suficiente para dar os melhores presentes para quem ama. Pessoalmente, quando ouço alguém questionar se o presente está "no nível" do homenageado, acho que tem algo que não faz sentido. E quando falamos de Natal, então, principalmente: na data que homenageamos alguém que é reconhecido pelo amor e humildade, qual seria a lógica de precisar ser rico para distribuir presentes caros?
Entendo que essencial é não esquecermos de quem amamos. Precisamos mostrar que a pessoa é importante, que nos preocupamos com ela. Se o valor do presente for importante para quem recebe, essa pessoa não deveria ser importante para quem o oferece.
Queria aqui exemplificar o quanto o valor não é nada, quando falamos em carinho e amor fraternal. Em meus quase 47, eu já ganhei presentes de tanta gente e de todos os valores possíveis e imagináveis. Mas sempre que chega o natal, o  presente que sempre vou olhar, que sempre me dá imensas e doces recordações é o presente abaixo, que nem foi para mim...
O meu inesquecível presente de Natal
Não sei se todos conseguem "entender" o que está na foto. Explico: é um pano de centro de mesa, feito de "saco", aquele pano simples de algodão que se usa normalmente como pano de chão e hoje ficou comum comprarmos aos montes nos semáforos. O pano tem alguns desenhos bem simples, primários até, e um crochê ao redor também básico, já com algumas falhas.
E porque algo tão simples, com custo quase desprezível, é tão significativo? Por que guardo esse presente dado para minha mãe há mais de 30 anos, que eu pedi para guardar comigo? Porque esse é o típico presente que minha avó Ana dava, um para cada família dos seus filhos. Quando ela chegava em casa, ela trazia um ou dois panos como esse e dava para minha mãe. Minha vó era alguém muito simples, que nunca teve nenhum luxo, mas ele investia um bom tempo para fazer esses paninhos para dar para família. Esse paninho retrata muto a minha vó: simples, discreta, carinhosa. E é esse paninho que eu, todo ano, dou uma olhadinha no Natal para lembrar como não é dinheiro o mais importante.
Esse ano cuidei para que fosse lavado a mão, com todo cuidado, para que siga comigo por mais 30 anos ou mais. O paninho da minha avó, o paninho de Natal.
Que todos tenham um grande natal. E que ganhem e deem muitos paninhos. Mesmo que não tenham muito dinheiro, lembrem-se que sempre há um jeito de fazer os outros felizes.

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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Preconceito e gordofobia

O mundo anda a cada dia mais difícil. E as pessoas a cada dia mais sem noção. Ontem eu estava ouvindo a CBN (a rádio da Globo, aquela TV que defende exposição pornô para crianças e que repudia opiniões da Dona Regina) e um "pesquisador" explicava um trabalho que fez para a Skol sobre o quanto o país é preconceituoso com base em um levantamento que ele fez.
Bom, é lógico, óbvio, que todos já sabem o nível da "pesquisa". Ele jogou frases que muitas vezes só são preconceituosas para quem tem preconceito na veia e vê preconceito em tudo e desta forma "provou" que o mundo é preconceituoso, cqd (como queríamos demonstrar).  Mais uma típica coisa da turma da esquerda, de usar qualquer coisa para "concluir" o que queriam concluir, pulando a parte em que se precisaria conectar a tal coisa com a conclusão. Aquele papo típico de perguntar se você é contra cotas e aí "concluir" que todos são racistas (como se fosse verdade que ser contra cotas é ser racista: pessoalmente, eu considero exatamente o oposto, pois para mim quem é a favor de cotas raciais é racista).
Bom, mas neste post eu queria comentar um ponto específico da "pesquisa" comentada. Lá, havia uma frase "ela é bonita, mas gorda" e o tal "pesquisador" concluiu (?) que isso é uma clara PROVA que há preconceito contra gordos, gordofobia (sim, ele usou esse termo, acreditem!).
Vamos lá. Segundo o Google, preconceito é:
1. qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico.
2. sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância
Entendo como preconceito quando alguém usa um conceito prévio sobre algo, sem ser justo. Por exemplo, quando alguém diz que toda loira é burra, é um claro preconceito. Não há dúvida que toda loira é loira, mas não há nenhuma prova científica que cor de cabelos tem a ver com inteligência. Seria, claro, um indicativo de preconceito, se a frase fosse, por exemplo, "todo gordo é chato".
Mas gente, "ela é bonita, mas é gorda" é apenas uma constatação. Não há "preconceito" quando alguém diz que uma pessoa gorda é gorda. Não é preconceito dizer que eu sou narigudo ou barrigudo. Também não é preconceito dizer que um loira é loira. Isso é, apenas e tão somente, uma característica física. Não é um sentimento hostil e não demanda exame crítico identificar que alguém é gordo.
Ah, mas dirão os chatos politicamente corretos: e o "mas"? Mas é adversativo, quer dizer que é oposição. Bom, chatos, a beleza está muito associada a saúde: gente saudável normalmente é mais bela que gente doente. E, SIM, obesidade é algo que vai contra a saúde. Então, o mais natural seria imaginar que alguém que é bonita não seja gorda. Mas que bom que a gordinha em questão é bela: e melhor ainda para ela se fizer um regime no futuro, para além de bela, ter saúde.
Eu não tenho preconceito de cor, gênero, opção sexual e muito menos com gordos, já que praticamente a vida inteira fui gordinho. Espero que na minha juventude muitas meninas tenham olhado para mim e dito "ele é um gordinho bonito": isso me deixaria lisonjeado. Mas tenho sim preconceito: tenho preconceito contra esse tipo de "pesquisa" rasteira desse povo que tenta, de todo modo, a qualquer custo e sem qualquer limite, impor sua agenda. Para esse povo sem ética, todo meu preconceito!

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Polícia Federal - A lei é para todos

O lançamento não poderia ser em data mais simbólica: em um sete de setembro. O filme é muito bem pensado: ao invés de um chato documentário, é um thriller policial muito emocionante. Embora saibamos o que vai acontecer, em muitos dos momentos não conhecemos todos os detalhes e não tem como não ficar "torcendo".
Os atores estão incríveis. E o diretor (Marcelo Antunez) foi muito corajoso. Eu achava que eles fugiriam da polêmica, mas ele vai com tudo bem no ponto mais delicado até o momento: a investigação sobre o ex-presidente. E o diretor também ilustra muito bem os personagens típicos, como os puxa-sacos do ex-presidente, o exército do PT (MST, MTST, CUT) e os jornalistas nada éticos que usam seu espaço para trabalhar para o partido.
É muito interessante entender os momentos, as dúvidas, as pressões e tudo o que esses heróis da lava jato tiveram que enfrentar até agora para fazer a maior investigação do país, a primeira com coragem para prender grandes empresários e políticos muito importantes.
Enfim, é um filme imperdível. Todos precisam ver e incentivar mais e mais brasileiros a assistirem e entenderem o país em que vivemos e a máfia que tomou nosso Estado. Além disso, como cidadãos, é essencial que apoiemos a produtora que teve a coragem de fazer esse filme, embora fique claro que ela não teve todo o apoio que normalmente filmes dessa dimensão tem: não tem o apoio da Ancine, é só dinheiro de investidores. Então, se não enchermos os cinemas, eles não vão conseguir fazer os previstos 2 e 3. Brasileiros: todos ao cinema!





 O trailer é muito legal














E os atores estão fantásticos


Outros bons filmes: 
O jogo da imitação com o pai da computação 
Belo filme: rude, drogado e genial Sebastião
Um nordestino, um favelado e uma história de amor: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha 
Gandhi: um filme incrível sobre uma pessoa extraordinária
Thatcher: uma mulher única
O novo cinema brasileiro (com O homem do futuro) e o Jabor
Roque Santeiro 
A "boa" da terça 
Senna
O discurso do rei
A rede social 
Trapalhões na luta contra a ditadura

E desenhos
O amor e suas lições em Frozen
Um desenho imperdível para gamers: Detona Ralph
Rio
Up


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Diários de um professor: paraninfo

Tem momentos da vida que não podem ser esquecidos. Aqueles momentos que ficam para sempre.
Comecei minha vida dando aulas em uma pequena universidade em uma cidade bastante humilde. Universidade pequena, alunos humildes, mas séria como boa parte das universidades não são. Adorava dar aulas lá, por ver que eu realmente poderia fazer a diferença na vida daqueles jovens, muitos dos quais não tinham muitas expectativas de mudar de vida. Espero ter conseguido, naqueles três anos que por lá estive, ajudar alguns daqueles jovens a ver que poderiam ir muito mais longe.
Eu vim de uma geração que lutou contra os militares, contra a corrupção. Uma geração que acreditava na utopia de um mundo melhor, com pessoas mais íntegras. E ao longo da minha graduação sempre vi a escolha das homenagens nas formaturas ser algo sempre feito com base na história de vida (no caso de patronos) e na competência do professor (no caso do paraninfo e homenageados).
E foi com profundo espanto e decepção que descobri que os alunos daquela universidade sempre escolhiam como patrono algum político da cidade, desde que ele pagasse a festa da formatura deles. Isso, para mim, é corrupção. Jovens venderem a homenagem em troca de uma festa era tudo o que eu não esperava ver em jovens. Sempre acreditei que jovens são a parcela da população que tem a obrigação de ser a referência ética de uma sociedade (porque, infelizmente, com a idade, as pessoas tendem a se tornar mais "flexíveis", tolerantes, pragmáticas). Afinal, se os jovens não forem "melhores" que os mais velhos, qual a esperança do mundo melhorar?
Ao descobrir essa prática, eu sempre mostrava para aqueles jovens a minha indignação por eles se venderem por tão pouco. E foi justamente de uma das últimas turmas para a qual lecionei lá que tive uma grata surpresa. Eu já havia sido homenageado em algumas turmas. Mas os alunos daquela turma, com um ar de satisfação, aquele sorriso de saber que era o correto a ser feito, me convidaram para ser "paraninfo e patrono" da turma deles. Eu ainda questionei: mas eu não tenho dinheiro para ajudá-los na formatura. Mas eles fizeram questão de me manter com os dois.
Esse foi um dos melhores momentos da minha vida como professor. Não pelo ego de ter sido escolhido, embora nunca seja algo ruim ser lembrado pelos alunos. Mas, principalmente, por ter conseguido influenciar aqueles jovens a não vender a opinião deles, por ter conseguido introspectar em pelo menos alguns deles um valor em que realmente acreditava. E no qual ainda acredito.
Ser professor pode não ser a profissão mais bem paga no mundo. E as vezes é bem cansativo. Mas conseguir chegar em casa com a satisfação de ter feito algo de bom para o mundo, para a sociedade, e, principalmente, para jovens, é sempre profundamente motivador!

domingo, 14 de maio de 2017

Exagerada mãe

Minha mãe é um exagero só, em tudo que faz.
Sempre foi exagerada em sentimentos. Carinhosa além da conta, ficava muito muito brava por muito pouco, um ciúme, muitas vezes despropositado, fora do comum. Chorava muito sem motivo ou ficava feliz, inexplicavelmente, cantando a manhã inteira. Para algumas palavras, até certo ponto comuns, reage como se estivesse ouvindo uma ameaça de morte. Para alguns comentários muitas vezes inocentes e sem nenhum outro significado, sempre imagina motivações maquiavélicas. Quando embirra com alguém, fica o tempo todo tentando achar maldades em qualquer ação. Mas para o Roberto Carlos, o rei de belas músicas e muita malícia, sempre devotou um respeito tão exagerado, como se ele fosse um anjo inocente e puro, que diz não ver suas picardias de homem bem sem-vergonha.
O exagero da minha mãe chega ao seu topo com comida. Se ficarmos 1h na casa dela, vamos ter que almoçar (ou jantar, ou café, ou lanche, ou ceia, o que couber no horário). Em 2h, terá uma refeição e algo em seguida. Se ficarmos 10h, serão 10h ininterruptas de comidas, em sequencia: ao sair do café da manhã vem um sem fim de doces e frutas, conectado com uns biscoitos que vem enquanto ela está preparando o almoço, que vai ter 3 carnes diferentes que ela espera que comamos, cada uma, em uma porção que é o dobro do que comemos no total em uma refeição normal, temos que comer o feijão que ela fez especial, o arroz, os 4 tipos de salada e 3 legumes, e por aí vai. Lógico que após o almoço virão as frutas, as 3 sobremesas que ela fez e umas outras 3 que ela comprou. Nem saímos da mesa, já virão os chocolates e doces enquanto ela prepara o lanche da tarde, cheio de pães deliciosos que ela comprou, mas as 18h o jantar já estará a mesa. E se sairmos as 19h, ela ainda vai insistir em levar algo para "se tiver fome" depois dessa maratona gastronômica. E se não provarmos tudo que ela fez ou comprou "com tanto carinho", serei o filho malvado que não dá valor e só fica fazendo charminho para deixá-la triste.
Mas o real grande exagero da minha mãe é seu coração. Cabe tanto amor, tanto afeto, tanta preocupação. Ela se preocupa com todos e tudo, mesmo com aquilo que não precisaria ou com aqueles que não mereceriam. É capaz de perdoar gente que fez coisas que eu jamais perdoaria. É capaz de ser carinhosa com um estranho, com um desconhecido. Com crianças, então, é sempre um total doce, com um tratar tão especial, que não há criança que não se apaixone por ela em seu primeiro contato. Com os filhão aqui, então, nunca deixa de ser a mãe exageradamente zelosa e carinhosa que sempre foi, se preocupando com o que comi, com o que vou fazer, em eu não me meter em confusão e não brigar com gente má, e por aí vai. Quantas vezes não sorrio ao vê-la agindo como se ainda fosse aquele gordinho bobo de 40 anos atrás (ok, ainda sou gordinho e bobo, mas agora já sou velho o suficiente para cuidar das minhas coisas). Ela é uma mãe exagerada até no mundo virtual: muitas vezes, mesmo sem entender nada, curte tudo o que eu escrevo e ainda comenta.
Obrigado, meu Deus, por ter exagerado tanto na escolha daquela que me pôs no mundo e que me acompanha com esse exagerado carinho. Um exagero de obrigado por tudo para minha mãe. E um exageradamente feliz dia das mães para a velhinha da praia. Te adoro, mama, exageradamente.

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quarta-feira, 1 de março de 2017

Carta a um ex-amigo que agora prefere seu partido ao povo



Abaixo repasso o conteúdo de uma carta que repassei com pesar a um ex-amigo. Só mudei alguns trechos porque não quero identificá-lo.

Caro ex-amigo,

     Há semanas venho pensando em escrever esta mensagem. Eu precisava mandar este texto. Porque há anos eu tive um amigo que dizia estar do lado do povo, do lado dos mais humildes, que jurava ter compromisso social. E eu acreditava nele. Mas hoje ele se tornou uma pessoa violenta, elitista e egoísta. Como posso ter me enganado tanto?  

     Ele é violento porque defende pessoas que usam a força para impor sua vontade à maioria que não concorda com suas teses.  Manipula jovens para que batam em professores idosos para apoiar seu lado. Se diz “indignado” quando a maioria pacífica da universidade vaia uma professora que defende em uma carta a violência e o FASCISMO. Sim, porque defender que os “direitos coletivos se sobrepõe aos direitos individuais” é um discurso típico do Mussolini. Imagine que “interessante” seria se o seu direito à vida fosse subordinado ao “interesse coletivo”, interesse esse “definido” pelo governo: há algo mais absurdo e ditatorial que isso? 

   Ele é elitista porque usa tudo o que pode para defender o partido mais elitista que já houve na história desse país. O partido que no último governo:
- foi o que mais privatizou na história, além de ter quebrado todas as empresas públicas que eram dos brasileiros (correios, caixa, Petrobrás, Eletrobrás) e hoje se resumem a dívidas;
- a violência contra a mulher aumentou;
- quebrou os fundos de pensão de todos os trabalhadores públicos, que vão acabar sem aposentadoria no futuro graças a esse governo;
- foi o governo que menos assentou sem terra na nova república;
- só no último governo, depois dos militares, a desigualdade social piorou;
- o desemprego bateu recorde histórico e atinge principalmente os mais humildes;
- mesmo quem está empregado, mas que ganha pouco, não consegue mais nem comprar comida, graças a inflação e ao nível de impostos que só subiram (há algo mais elitista que não reajustar a tabela do IR?);
- só se deu bem neste governo os funcionários públicos estáveis, que ganham salários de 5 dígitos. Quem defende esse governo, defende essa pequena elite e dá uma banana para o povo pobre que está sofrendo com a pior crise nos 517 anos de história do Brasil;
- e nem vamos falar da corrupção desenfreada... 

   Ele é egoísta porque:
- não liga para o povo pobre que sofre graças ao seu partido, incluindo 12 milhões de desempregados; 
- não liga para os jovens, que estão ficando aos montes desempregados graças a política econômica nefasta que seu partido implantou;
- não liga para o conjunto imenso de jovens e trabalhadores que estão deixando o país que amam por absoluta falta de oportunidades;
- não liga nem para os seus ex-colegas, aos montes desempregados, lutando para tentar sustentar suas famílias (ele nem deve saber deles, mas eu conheço vários nessa situação e estou tentando ajudá-los como possível). 
  Ele não liga para esse povo porque ele está preocupado demais com os riquinhos estáveis com salários de 5 dígitos, com os sindicalistas de Hilux, para se preocupar com desempregados...  Ele prefere elogiar políticos desonestos com salários estratosféricos a olhar para o povo morrendo de fome na rua... 
   E seu egoísmo não é apenas por não ligar para quem está sofrendo, mas também por usar de má fé ao explorar entidades sindicais que deveriam ser dos trabalhadores para defender seu partido, sem a mínima ética e sem nenhum preceito democrático e de representatividade, usando chavões batidos e mentiras repetidas à exaustão, para justificar que uma entidade não defenda a quem deveria representar. Como sei que ele é muito inteligente, não dá para acreditar que ele defenda o partido elitista por inocência. Ele o faz para se dar bem, para conseguir fama e prestígio, não se importando se, para isso, for necessário bater em colegas, prejudicar trabalhadores íntegros, estudantes ou mesmo quebrar o país. O importante é ele se dar bem... 

   SE eu pudesse falar com ele, eu daria parabéns por ter sido tão bom ator e ter me feito acreditar que ele era uma pessoa boa. E o aconselharia a seguir os passos que está seguindo. Quem sabe assim ele não acaba em algum cargo comissionado em algum governo do seu partido, que adora “premiar” com cargos e altos salários quem faz qualquer coisa para apoiá-los. Ou quem sabe ele consegue até uma participação em algum petrólão futuro, com uma conta polpuda no exterior: esse deve ser o real interesse dele, concorda?
   Bom, era isso que eu queria dizer. Eu que vim debaixo, filho de feirante... A grande maioria das pessoas que conheço vive com não mais que três ou quatro salários. Tento sempre agradecer ao país que me deu essa oportunidade trabalhando muito, em pesquisas para melhorar a educação de jovens do ensino público, em projetos que buscam dar mais oportunidades para quem vem debaixo. Eu lutei contra os militares, lutei contra a concentração de renda, lutei contra a corrupção do Maluf e de tantos outros e sigo sem mudar minha visão de mundo, sempre lutando pelo povo mais humilde, pelo certo, pelo justo e por governos que ofereçam futuro e oportunidade para todos.  Eu queria muito que meus filhos tivessem um país melhor que o meu, mas os 13 anos do governo anterior acabaram com esse sonho... Enfim, o governo caiu, por seus próprios e infinitos erros, e nem mesmo um STF aparelhado e totalmente submisso ao partido em questão conseguiu impedir tal fato, STF que é o guardião da constituição: mas mesmo assim ainda temos que ouvir falarem em “golpe” em uma pregação tão sem sentido e tão mentirosa que dá asco. 
   Eu tenho grande vergonha de ter tido aulas com pelo menos dois professores que sei que hoje jogam o jogo sujo de defender o seu partido por interesses mesquinhos e egoístas, sempre usando a falácia de ser “a favor do povo”, de ser de “esquerda”: eu sigo admirando a esquerda de verdade, a esquerda democrática (Cristovam Buarque, Eduardo Jorge, Roberto Freire, Gabeira, Hélio Bicudo, etc.), esquerda que não defende o partido em questão. Só segue defendendo quem quer compartilhar as “vantagens do poder”. Mas preciso confessar que tenho profunda vergonha de ter sido amigo de alguém que hoje é um articulador de um jogo sujo, de mentiras e de intrigas, nesse joguinho partidário vergonhoso sem limites, que tenta justificar até violência física... Alguém que transparece ódio pelos olhos ao ver que a maioria que ele deveria representar não vai se submeter aos seus interesses.  Como pude me enganar tanto com alguém? E, fico pensando, como ele tem coragem de acordar de manhã e olhar no espelho? Será que ser “importante” no seu partido o faz esquecer que está manipulando jovens, está pregando violência física, está defendendo o partido que quebrou o país e está fazendo dezenas de milhões sofrer de fome e desesperança?  O “sucesso” partidário o faz ignorar todo o mal que está fazendo ao povo? Ser do partido o faz esquecer que a função de um representante é REPRESENTAR a maioria, e não usar a maioria? 
    Enfim, fecho assim esta nota de pesar. Aqui se encerra uma admiração que eu tive por uma pessoa por mais de uma década. Aqui se encerra a esperança que minha geração tivesse real compromisso com a verdade, com a ética e, principalmente, com o povo mais humilde. Aqui se encerram as ilusões. Há Malufs na minha geração, entre pessoas que foram meus amigos, pessoas com interesse político que só querem se dar bem, mesmo que seja preciso usar a violência contra a oposição...  

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