sábado, 11 de maio de 2013

As mentiras da minha mãe

Minha mãe sempre falava coisas que me espantavam. E ela me dizia que quando virasse pai eu iria entender... Virei pai, e já tenho muitos km rodados nessa "função". A conclusão que tiro é que minha mãe mentia para mim.
Lembro quando eu perguntava para ela se ela não tinha nojo em mexer no cocô da gente, seus bebês. E olha, que naquela época, era fralda de pano: tinha que lavar, torcer, esfregar a caca toda... Me embrulha o estômago só de pensar. A resposta dela é que não tinha nojo das "coisas" dos filhos. Pois bem, depois de um milhar de fraldas trocadas (ou mais), outro dia eu estava na creche e vi uma mãe tendo que colocar a "mão na massa" da fralda da filha. E olhei para meu pequeno e pensei: "graças a Deus você aprendeu a usar o vaso e nunca mais vou ter que mexer em cocô novamente..." Muitos anos se passaram e para mim cocô continua sendo cocô, algo nojento, asqueroso, algo que não deve ser visto e, principalmente, manipulado. MESMO DOS MEUS FILHOS... Cocô é cocô, nojento, não importa a origem.
Minha mãe sempre me falou também que sempre nos achou os bebês mais lindos do mundo. E que toda mãe acha seus filhos perfeitos. Pois é: eu amo de paixão meus filhos, acho eles super demais e não me canso de agradecer a vida por ter me dado essas pérolas tão incríveis. Mas seria cínico falar que eles são os mais bonitos do mundo: não são. Nem são os mais inteligentes, nem os mais habilidosos em tudo. São seres humanos incríveis, e os amo por serem isso. Mas não consigo vê-los como símbolos da perfeição. 
Quando ela falava que eu não a deixava dormir, eu perguntava como ela aguentava e a resposta era sempre que bastava um sorriso de seus filhos e todo o cansaço ia embora. Ou eu era um santo, que tinha um sorriso milagroso, ou foi uma nova mentira da minha mãe. Pois depois de uma ou duas noites dormindo pouco graças a uma febre de um pequeno, não há sorriso deles que me tire o cansaço. Adoro vê-los sorrir, disso não tenho a menor dúvida, mas adorar um sorriso não tira meu cansaço.
Minha mãe cuidava de tudo e de todos em minha casa. Sempre roupa bem lavada, a mão (pois a máquina estragava a roupa), tudo neuroticamente limpo, comida fresca e variada (saudável e deliciosa), os filhos sempre impecavelmente arrumados... E ela fazia tudo isso cantando. Não é possível que ela não sentia cansaço, desânimo. Aquele cantar de tantas músicas que sei de cor até hoje, só podia ser um fingimento: como alguém trabalhando tanto conseguia ainda manter a felicidade no coração? Se eu tiver que fazer uma comida simples e lavar uma pia de louça, já preciso de umas 4h para recuperar a boa vontade!
Enfim, pensando nos exemplos acima e em um milhão de outros exemplos, o que me vêm a cabeça é que minha mãe sempre foi uma grande mentirosa. Mentia pois jamais quis cobrar ou reclamar de nada que fazia para seus filhos. Mentia porque sempre quis ser uma mãe mais que perfeita (pois seria perfeita mesmo se demonstrasse seu cansaço). Ou então, minha mãe pertence a uma outra classe de pais, com um amor tão superior e tão incondicional, que faz o coração se impor ao racional, ao nojo, ao cansaço. Seja como for, eu sei que devo muito a essa moça que me fez ser o que sou.
Feliz dia das mães, para a mãe mais mentirosa e amada do mundo!

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