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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dinocamp: de volta ao bandejão

Bandejão UNICAMP: pouca coisa mudou nesses 25 anos
A vida passa muito rápido. Não parece, mas há mais ou menos 25 anos atrás eu entrava pela primeira vez no bandejão. Lembro como se fosse ontem, na verdade lembro melhor, porque não lembro o que comi ontem. Lembro que o nosso amigo Tetsu comeu tanto e com tanta vontade que fizemos uma vaquinha para comprar outro bandejão para ele ;-)
Como eu estava feliz naquele dia. Eu estava na UNICAMP, lugar do meu sonho. Sim, eu tinha conseguido entrar em computação na UNICAMP, mesmo com quase 40 candidatos por vaga! Mesmo sem ter feito cursinho. Mesmo vindo de uma família super-humilde. Eu tinha conseguido graças a muito esforço, a um ano de estudo quase ininterrupto, sábados, domingos e feriados. E lá estava eu com tantos amigos que depois viraram meus melhores amigos de toda a vida, comendo no bandejão.
O bandejão da UNICAMP tem um clima de festa. Aquele restaurante gigante, com milhares comendo, e no início das aulas, cheinho de bixos carecas, pintados.... Muitos chatos reclamam do bandejão: eu comi lá praticamente todo dia durante toda a minha graduação, praticamente toda noite nos 4 últimos anos da graduação (pois não existia bandejão noturno em 88) e uma parcela significativa de refeições durante o meu mestrado e doutorado. A comida é simples, básica, mas normalmente boa: sempre tem arroz e feijão bem temperados, sempre tem salada e pão e variam as misturas e sobremesas. Ótimo para quem não é enjoado e não tem dinheiro a perder.
Bixete toda pintada se servindo de salada
Há tantas boas passagens no bandejão. Lembro quando, em algum trote, fizeram os bixos comer só de colher, confiscando garfos e facas (era com a turma de 89?). Lembro que tínhamos sempre que procurar uma bandeja limpa, porque muitas ainda vinham com restos de comida do usuário anterior. Lembro quando pixaram a mesa com o suco de uva, que manchou e não saiu mais. Lembro dos parabéns a você que logo contaminavam a todos. Lembro da tia relapsa que jogava o feijão com tanta força na bandeja que tínhamos que pular para não ficar com pingos na roupa. Lembro do bife 007: "frio, duro, nervos de aço e licença para matar"! Lembro do "frango voador": frito tão duro que quando tentávamos cortar, ele saía voando. Lembro da escolha que podíamos ter nos dias de ovo cozido e salsicha: 2 ovos, 2 salsichas ou um de cada... Lembro do suco sabor amarelo 1, amarelo 2, vermelho 3: o gosto era independente da cor e não era fácil de lembrar a associação com alguma fruta. Lembro que eles davam copos e talheres embalados em um saco plástico e que usávamos esse saco para levar um pão para comer no café da manhã no dia seguinte.  Lembro até de um sábado que eu entrei escondido (porque estava com fome e não permitiram que alunos "normais" entrassem) e comi pizza no bandejão (uma brotinho para cada um). Aff, e isso foi só o que veio assim, sem pensar muito... O bandejão, sem dúvida, faz parte da minha história de vida.
E na última segunda eu tive a oportunidade de ir lá novamente. Foi muito bom reencontrar a fila, a rampa (dei aquela corridinha típica na descida), escolher uma bandeja mais limpinha, pegar o feijão e o arroz. Pouquíssima coisa mudou nesses 25 anos por lá. Tinha até bixos todos pintados. A estrutura é praticamente igual. Agora tem um balcão no centro onde se pegam saladas e pode se repetir arroz e feijão (se o Tetsu estivesse aqui, agora, que desfalque para a UNICAMP!). O que mudou mesmo fui eu, pois não sou mais aquele menino sonhador de 1988. Mas foi excelente voltar lá, comer arroz, feijão carne em cubos e banana e me lembrar dos bons tempos do passado. Que saudades da minha graduação, da minha turma todo dia em conversas ao longo das refeições... Que bom que tive a oportunidade de viver aqueles anos.

Outros textos "Dinocamp":
o trote
UAP
Marketing
Vestibular
A festa do tiro
A moradia estudantil
de volta ao 3.60
O reitor Paulo Renato

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Dinocamp: a festa do tiro

Uma das primeiras repúblicas formadas na moradia foi "Amordidona", a última do bloco A, em frente à indústria e ao lado da sala de estudos. Foi umas das primeiras porque já estava habitada nas férias, pois eu estagiava e mudei assim que possível. Era uma república de nerds: dois nerds de engenharia química e dois nerds de engenharia de computação. Não era uma república bagunçada, como uma república de quatro rapazes pode sugerir: estava sempre limpa e muito bem organizada. Também era bem montada, uma das primeiras a ter uma TV (que funcionava com bombril na antena). E era uma turma nerd mesmo, sempre estudando muito: só comíamos mais que estudávamos! Eu e meu colega mais comilão de EQ fazíamos um pacote de meio quilo de macarrão com molho de tomate natural e enriquecido com sardinha ou salsicha ou outra coisa barata e nós dois dávamos cabo de tudo em uma noite. E naquela época eu pesava 30kg a menos que hoje: inexplicável!
Amordidona tinha algumas tradições. Uma delas eram as "violadas", onde muitos se reuniam na sala para cantar músicas, em especial rocks dos anos 80 e MPBs, acompanhados pelo muito bem tocado violão do Assis... Eram festas super-in, só para os amigos. E maravilhosas. Até hoje penso em voltar a agendar de vez em quando, uma dessas...
Mas as coisas cresceram... Vieram os colegas de turma e era clássico que dois japas sempre bebiam demais e ficavam se equilibrando no murinho do segundo andar das salas de estudos, para meu desespero (tenho terror a altura e só imaginava eles caindo de lá). Em uma das festas mais "animadas" que organizamos, no meio da madrugada uma turma resolveu fazer uma corrida de cuecas no entorno da moradia e um dos comp88 voltou com uma calcinha, roubada de algum varal, na cabeça: inesquecível!
Mas a mais histórica, sem dúvida, ocorreu em um meio de ano: naquele momento resolvemos organizar uma festa grande, uma festa junina. Tinha fogueira na rua, a casa estava decorada com balões e fizemos um caldeirão de vinho quente. A festa rolava solta quando eu - tenho que assumir isso, fui eu - vi que um guardinha da portaria estava ali por perto e ofereci vinho quente. Bom, eu ofereci e fui embora, mas depois vim saber que o distinto, depois do primeiro, não parou mais até ficar trêbado, encostado na janela da cozinha da casa sem soltar o copo um único instante.
E foi trêbado que ele viu "invasores" entrando na moradia, tirou a arma e atirou bem no meio da fogueira, no momento cercada de pessoas da festa. E, instantaneamente, uma centena de pessoas correu em pânico, a maioria para dentro da república, uns 30 dentro do banheiro que tinha uns 4m2 no máximo! Eu era um deles...
Nesse momento, meu colega "batatinha" mostrou que era o real "macho" da turma e mesmo com seus 1,5m saiu da casa, se aproximou do guarda, conversou com ele e em uma ação rápida, o imobilizou e tirou a arma da mão. E a arma acabou lá no banheiro conosco: desmontamos a arma nos menores pedaços possíveis e a escondemos...
Sinceramente, não lembro dos detalhes finais: se a polícia foi chamada, quem levou o guardinha embora e como a arma foi devolvida. Mas lembro que depois dessa famosa festa a Unicamp proibiu que os guardinhas usassem armas por muito tempo!
Sem dúvida, essa foi a passagem mais "histórica" da minha juventude: imaginar que a lendária "festa do tiro" foi organizada por aqueles quatro nerds, um deles eu, é quase-inacreditável... Mas, acreditem, foi! E muitos que lerem este texto estavam lá e podem confirmar!

PS. um colega presente na festa complementou o que eu havia esquecido: "ninguém sabia direito o que fazer com a arma. Eu ajudei a descarregar o revólver e ele foi guardado num lugar, os cartuchos em outro. Logo depois apareceram mais dois seguranças, um dos quais parecia ser um supervisor do que atirou. Foi ele quem levou o atirador e a arma embora." (by Fernando)

Veja também outros textos da série Dinocamp:
Dinocamp: a moradia estudantil
UAP
Marketing
Vestibular
de volta ao 3.60

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Dinocamp: a moradia estudantil

A Unicamp não teve moradia estudantil até o ano de 90. Antes disso, só um bando de politiqueiros, daqueles bancados por partidos para o diretório central dos estudantes (vide aqui um post sobre isso), tinham invadido uma parte do ciclo básico, no que chamavam de Taba.
Em janeiro de 90, o Paulo Renato - tinha que ser ele - inaugurou a moradia. Inicialmente só o primeiro bloco. E eu estava lá na inauguração, eu que fui um dos primeiros moradores daquele lugar único, onde a experiência universitária atinge grau máximo.
A inauguração foi "interessante": reitor e políticos, todos orgulhosos, apresentando a "casa" para uma imprensa interessadíssima. Mas apresentando só a primeira casa do bloco A, que estava, acreditem, toda decorada com móveis, lustres e tudo mais, da Tok & Stok, "super-chiques". Estava linda, é fato. Mas era algo totalmente falso, algo só para a inauguração, algo que não existia em mais nenhuma casa. Irritado, eu mesmo mostrei o absurdo que era aquela casa "fantasia" para a imprensa, que se surpreendeu ao eu dizer, e ao ver ser verdade, que as outras casas estavam totalmente diferentes. Não sei se isso acabou publicado, mas eu fiz questão de denunciar...
Bom, mas as casas, mesmo sem móveis da Tok&Stok são muito boas: um quarto confortável para quatro, uma sala gigante, cozinha com geladeira e fogão conjugados e banheiro. Os móveis - camas e mesa da sala - são simples, mas de ótima qualidade, muito robustos. Não há o que reclamar. E eu adorei poder morar 3 anos lá, ainda mais porque não tinha como continuar bancando, com meu estágio de 20h, um ap no centro e o ônibus diário - na época não havia muitas opções em Barão Geraldo.
As casas eram numeradas aleatoriamente: acho que foram pessoas analfabetas que pregaram as placas, não é possível. Os números eram sem sentido, em ordem inexplicável. Coisas que só acontecem na Unicamp...
A moradia em obras: saudades desse tempo!
Quando a moradia começou, não tinha ônibus da Unicamp até lá - o que acho um luxo até exagerado. Nós fazíamos o trajeto de 3km entre a moradia e a Unicamp a pé, e era ótimo: para a saúde e para as amizades. Era um tempo que aproveitávamos para conversar e colocar todas as fofocas em dia. Eu e meu grande amigo de Limeira, por exemplo, usávamos para um eterno desafio de quem lembrava mais músicas bregas e íamos lá cantarolando "clássicos" do Waldick Soriano, Biafra, etc... Que tempo ótimo!
Junto com as turmas indo e voltando o "Chico", o cachorro estudante: ele saía conosco de manhã da moradia até a Unicamp, assistia as aulas de manhã no básico, "almoçava" no bandejão, dormia, como nós, nas aulas da tarde, "jantava" no bandejão e voltava à noite para a moradia, onde dormia. Sim, ele era um perfeito estudante! Diz a lenda que ele se "formou" e foi fazer intercâmbio no exterior :-)
Já no terceiro ano da moradia, juntando cada trocado do estágio e comendo só no bandejão, consegui comprar um fusca caindo aos pedaços. E fui ameaçado por alguns moradores de ser despejado porque era "rico": é, acho que fui o primeiro "motorizado" da moradia. Pouco depois, carros zero, "presentinhos" de pais, começaram a popular aquilo que deveria ser um reduto dos mais humildes alunos.  
Ainda em 90, os ex-habitantes da Taba, tentaram "emplacar" um critério "político" para a seleção dos moradores. Isso mesmo, critério "político". Segundo eles, quem "lutou" pela moradia, deveria ter preferência. Ou seja, eles achavam que aqueles "estudantes profissionais", que já estavam há uns 10 anos na Unicamp apenas para fazer política partidária, tinham mais direito de ter uma moradia gratuita que um estudante humilde que não teria como se sustentar em Campinas de outra forma. Ainda bem que isso não foi aceito. E, posteriormente, o SAE - orgão de apoio aos estudantes da universidade - acabou assumindo a seleção, o que achei ótimo, pois tirou a possibilidade desses politiquinhos de quinta categoria usarem a moradia para se promover.
A moradia foi inaugurada pouco a pouco: primeiro o bloco A, onde eu estava, e aí os outros. Antes de eu me formar, alguns anos depois, já estava com as mil vagas disponíveis, sem dúvida um contingente de vagas mais que suficiente para atender a todos que realmente precisam. É mais um belo serviço que a universidade faz pela distribuição de renda, aumentando as oportunidades de pessoas humildes conseguirem mudar de vida. E eu convivia, naquele bloco A, com muitas pessoas bem humildes e fantásticas, pessoas das quais tenho muitas saudades.
Da moradia e daquele bloco A inicial ainda há muitas outras histórias interessantíssimas, como a "festa do tiro", o "trote no bixo", a "festa do contrário", o "causo do auto-elétrico", etc. Mas o post iria ficar grande demais, então deixo para um próximo.
O que posso dizer, com certeza, é que foram 3 anos inesquecíveis da minha vida. E, diferentemente da visão dos habitantes de Barão, aquilo lá está bem longe de ser uma depravação geral à la Porky´s. Nunca consegui focar tanto nos estudos como lá, convivendo em um "bairro" só de estudantes. Se haviam casas mais "agitadas", haviam muitas casas como "Amordidona", a minha, habitada por estudantes de engenharia sérios e interessados. Além disso, a experiência única de viver ao lado de tanta gente tão fantástica estará para sempre em minha memória.

Veja também:
- Dinocamp: UAP, Marketing e Vestibular
- Momento retrô: de volta ao 3.60
- O reitor Paulo Renato
- A nova política estudantil
- o vergonhoso movimento estudantil: 1, 2 e 3

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

DinoCamp: o marketing

Já falei de duas estratégias brilhantes do Paulo Renato para atrair a atenção para a nossa universidade: a festa de dezenas de milhares de pessoas que era a UAP e o vestibular revolucionário e nacional. Tudo isso fazia parte de uma estratégia maior, trazendo divulgação e mídia para cá.
No início dos anos 90, nada na TV era mais ligado à geração jovem da época que o revolucionário "Casseta&Planeta". E um dos bordões mais usados da turma do Casseta era, justamente, "pesquisadores da Unicamp de Campinas inventaram... " e lá vinha mais uma absurda "invenção". Bom, Campinas também sempre foi bem citada pelos Cassetas, mas por outro motivo ;-) (vide aqui)
O programa Casseta usava o bordão porque a Unicamp na época estava em iminência. Todo mundo sabia que era uma universidade de ponta, com pesquisas incríveis. E não saía da mídia. Todo esse marketing, certamente, mudou o patamar da Unicamp no Brasil. E foi uma estratégia louvável, pois obviamente também trouxe para cá alunos de todos os cantos do país, e até de fora, atingidos pela propaganda indireta e gratuita que tínhamos nos grandes meios de comunicação.
É interessante ver o quanto um gestor de primeira pode revolucionar uma universidade como a Unicamp. A grande questão é como garantir que os seus sucessores mantenham o trabalho que você fez... E se o Paulo Renato foi um reitor único, seu grande erro foi não ter formado sucessores com 1/3 da sua visão...

Veja também:
- Dinocamp: UAP e Vestibular
- Momento retrô: de volta ao 3.60
- O reitor Paulo Renato
- A nova política estudantil
- Aos meus grandes professores
- Viva Campinas! 

DinoCamp: o vestibular

O clima era mágico para quem vivia a juventude no final dos anos 80: o país saía da ditadura, tínhamos talvez o melhor congresso que esse país já escolheu (os senadores de SP eram FHC, Covas e Suplicy, só para dar um exemplo), tínhamos governadores eleitos, um novo mundo se desenhava à nossa frente: um sonho de um país democrático, livre e de futuro.
E foi exatamente nesse momento que o visionário Paulo Renato, nosso eterno reitor, lançou um slogan extremamente sedutor para aquela juventude : não queremos alunos bitolados, que decoram fórmulas e são treinados para fazer testes. Queremos alunos com capacidade de analisar e escrever, alunos críticos, que conseguem integrar seus conhecimentos em provas bem elaboradas que exigem visão abrangente. Naquele momento a Unicamp deixava a Fuvest e criava o seu próprio vestibular, que revolucionou o país, e exigiu mudanças profundas nas escolas e cursinhos que preparavam os alunos para os antigos vestibulares....
Para alguém da minha geração, era um apelo fantástico. E entrar na Unicamp deixava de ser apenas entrar em uma ótima universidade, mas também uma prova que não eramos um bando de nerds alienados, tínhamos atitude diferente, pessoas críticas, que gostavam e tinham capacidade de discutir. Foi em uma reunião da minha turma com a liderança do vestibular no ano de 88 que nos foi indicado que pesquisas comprovavam o perfil mais dinâmico e crítico dos alunos que entravam naquele novo vestibular.
Mas há um ano, novamente, a Unicamp tomou a decisão errada. E destruiu mais uma conquista do Paulo Renato. Desde o vestibular deste ano, o vestibular passou a ser na primeira fase, novamente, teste de múltipla escolha. O argumento é que o vestibular antigo era "caro" de se corrigir. Eu e um pequeno grupo de professores fomos contra, porque acreditamos que aquele vestibular era a cara da Unicamp e também selecionava alunos com o perfil que gostamos. Além disso, acreditamos que há muita gordura para cortar em áreas muito menos nobres que a seleção dos futuros alunos. Mas infelizmente fomos vencidos pela visão burocrática e curta dos "gestores" atuais da nossa universidade. Que certamente continuará a ter alunos brilhantes, mas talvez sem aquele diferencial de postura crítica e capacidade de argumentação que tínham os alunos até agora.

Veja também:
- DinoCamp: UAP
- Momento retrô: de volta ao 3.60...
- O reitor Paulo Renato
- A nova política estudantil
- Aos meus grandes professores

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DinoCamp: a UAP

Vou começar com este post uma série que há muito planejava escrever. Uma série de um dinossauro que arrasta sua barriga gigante pelos campos da nossa querida Unicamp há 25 anos. Para os antigos matarem saudades de suas histórias. E para os novos conhecerem como as coisas eram por aqui no passado.
Não poderia ser diferente, tenho que começar pelo começo. E o começo de tudo, para mim, foi a reviravolta que a Unicamp teve com um dos dois reitores realmente marcantes que ela teve: o Paulo Renato. Paulo Renato que há pouco nos deixou, depois de muito ter feito pelo país (vide este post).
O Paulo Renato resolveu que a Unicamp precisava mudar de patamar, precisava ser grande, ser conhecida. Começou com um evento histórico, memorável, a Universidade Aberta ao Público (UAP). Foram umas 5 edições naquele formato: um evento aberto, uma grande festa, onde excursões de todos os cantos vinham conhecer a Unicamp, que abria seus laboratórios para os jovens dos nível médio se apaixonarem pela ciência.
Foi o que aconteceu comigo: eu pensava em estudar na USP, muito mais perto de Santos, mas depois que vim visitar a UAP, em 1986, e vi um laser funcionando, e comi salsicha feita apenas com proteína saudável na engenharia de alimentos, e cientistas brincando de magia com misturas químicas, além de todo aquele "calor" que vinha de dezenas de milhares de "pré-bixos" rodando pela universidade, decidi que aqui seria meu lugar. Voltei em 1987, só para confirmar que queria ser um aluno do antigo DCC, departamento de computação que pertencia ao Instituto de Matemática. E entrei aqui em 88, depois de cancelar a matrícula que já tinha feito na USP, que me chamou primeiro no vestibular: e não me arrependo disso, jamais! Muito embora nunca mais tenha comido salsicha, nem visto laser, nem mesmo aquelas gatinhas que passeavam pelos gramados no dia da UAP :-D
A UAP tinha o clima dos jovens, tinha a visão do Paulo Renato de transformar a universidade pública em algo popular. Mas depois do Paulo Renato, a linhagem conservadora, chata mesmo, de professores, pressionou a reitoria para acabar com aquela "bagunça" que era a UAP. E a festa histórica e inesquecível do Paulo Renato virou a UPA, uma coisa burocrática, onde alunos precisam se inscrever antes para normalmente assistir a apenas uma palestra chata de professores nada simpáticos falando coisas que eles achariam facilmente no google, sobre apenas um curso. Como quase tudo na Unicamp, a ideia original que era fantástica se perdeu em meio à burocracia e a falta de objetividade dos gestores desta que é a melhor universidade do Brasil, segundo o último exame nacional.
Saudades do Paulo Renato, saudades da UAP. Mas ainda orgulhoso de ter sido aluno e de ser professor da Unicamp!

Veja também:
Momento retrô: de volta ao 3.60
DinoCamp: o vestibular
DinoCamp: o marketing