Estava eu em meio a um congresso na Paraíba. Todos muito preocupados com a educação do Brasil, pensando em computadores, softwares, ferramentas, formação de professores, etc.. Todos nos sentindo MUITO importantes e realmente comprometidos com a realidade social do país.
Acabei saindo para ir almoçar sozinho. Em um restaurante simples, de frente ao mar, pedi um prato de camarão ao coco e um suco, algo que não chega a R$ 20,00 nesta cidade tão barata. Passou um menino, baixo, mulato e com cara triste, e me ofereceu para engraxar o sapato. Como não é minha prática, neguei sem pensar. Na mesa ao lado, uma mesa de homens, aparentemente locais de bom nível social, em papo animado. O garoto os questionou, muito tímida e delicadamente, sobre engraxar, e um deles aceitou, tirou os sapatos, deu para o menino, e voltou à conversa. Fiquei ali observando esse canyon social, onde o garoto pobre precisa ficar até longe dos outros, para não incomodá-los. Ninguém olhou para o garoto com um mínimo de carinho, respeito: apesar de ser criança, ali era um ninguém. Quanto ele acabou de engraxar, depois de vários minutos de um trabalho bem cuidadoso, por curiosidade, fiquei observando o valor que seria dado: e me assustei quando vi o garoto receber R$ 2,00. Pareceu-me inacreditável, praticamente uma esmola, não é um pagamento por um serviço feito, e bem feito. Mais um da mesa pediu para que engraxasse e novamente continuou o papo enquanto o menino fazia seu serviço quieto, sem olhar para os clientes, em uma mesa distante. Desta vez ele deu R$ 5,00, o que me deixou menos decepcionado. Mas logo em seguida o menino foi até o interior do restaurante e voltou com os R$ 3,00 de troco! Já com peso no coração, chamei o menino e perguntei o preço e ele me respondeu, R$ 2,00. O chamei para perto da minha mesa, e lhe dei meus sapatos, e tentei estabelecer uma conversa.
O nome dele é Francisco, tem 13 anos. A mãe é faxineira e o pai faz serviços de jardinagem esporádicos. A família não tem “bolsa família”: não deveria ter? Ele está na TERCEIRA série, quando deveria estar na sétima! Tem dois irmãos mais velhos, e o mais velho dos três está na sétima. Ou seja, todos bem atrasados na escola! Ele me garantiu que vai à escola de manhã, e que trabalha só “à tarde e à noite”. Mas entrou em contradição em algumas vezes, por exemplo quando disse que me viu “ontem, as 8hs, na frente do hotel”. Ou seja, tem uma excelente memória, lembrar de alguém com quem nunca tinha conversado, mas não freqüenta de fato a escola. E não usufrui os benefícios que foram criados, justamente, para tirar essas crianças da rua e lhes dar um futuro: o Bolsa Escola (ou Família, como queira) fracassou com o Francisco...
Ele me disse que fatura normalmente uns R$ 10,00 por dia e em dia bom!, R$ 15,00. E que tem que pegar dois ônibus para trabalhar ali, um para ir e um para voltar: R$ 4,00 no total. E ainda, me confessou, que muitos acabam não pagando ou só oferecendo R$ 1,00! Tire o preço da graxa, R$ 5,00 por latinha segundo ele, e ainda escova, paninho, etc., e veja quanto esse garoto ganha para trabalhar de tarde e de noite e ficar sem tempo para estudar, brincar ou ter carinho da família. Como pensar no futuro do Francisco?
Quando o perguntei sobre o que ele quer ser quando crescer, ele me respondeu “garçom”. E perguntei se não queria algo mais, e ele falou emprego para seus familiares. Mas para ele, não pensa em nada além disso. Perguntei se ele não pensa em fazer faculdade, e ele me disse que a família não tem como pagar. Falei que tem faculdade gratuita, e ele me respondeu que só ricos de boas faculdades entram. Falei que tem o Pró-uni que paga faculdades particulares para pessoas como ele, e ele me indicou que não sabe nada sobre isso. Mais uma vez um claro indicativo que as políticas públicas não atingem o nível de população que deveriam atingir...
Para tirar um pouco do meu peso na consciência, ofereci um almoço e ele me pediu uma porção de favas, prato comum aqui. Ofereci um prato completo de favas e uma bebida, que ele escolheu guaraná. Ele comeu tudo, e muito rápido, menos a salada, porque, segundo ele “eu não SE dou com salada” (sic). Estava claramente com fome. Durante o almoço, insisti para ele pensar no estudo como única forma de mudar de vida e tentei mostrar que se ele realmente quiser, ele consegue chegar lá. Mas ele não demonstrou ter se sensibilizado com meu papo... E, demonstrando já algum desconforto, falou que precisava voltar ao trabalho. Dei uma nota de R$ 5,00 para ele: ele falou que ia trocar, mas eu disse que não precisava... E lá se foi um Francisco, um outro Francisco deste país de milhões de Chicos sem futuro, e sem sonhos. Um Francisco que nunca ganhará nada com meus projetos de pesquisa e nem terá vantagens com as políticas ditas “sociais”.
Me senti um impotente, com uma arrogância desmedida, viajando ao redor do país, gastando milhares de reais públicos, para discutir aprendizagem, computadores, jogos, etc., para melhorar o nível da população. E como eu, há mais 600 por aqui, no mesmo evento! Mas a população que realmente precisa mal estuda, trabalha muito e ganha muito pouco, é tratada com desprezo pelos mais ricos e não tem sonhos nem perspectivas. Para esses Franciscos, o que importa é um prato de favas que lhes tire a fome.
Excelente texto. Retrata nossa realidade brasileira com uma sensibilidade desprovida de politicagem. Parabéns pelo texto e atitude. E fica lançado mais um desafio de tema a ser abordado com inteligência em algum outro congresso...
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