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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Diários de um professor: paraninfo

Tem momentos da vida que não podem ser esquecidos. Aqueles momentos que ficam para sempre.
Comecei minha vida dando aulas em uma pequena universidade em uma cidade bastante humilde. Universidade pequena, alunos humildes, mas séria como boa parte das universidades não são. Adorava dar aulas lá, por ver que eu realmente poderia fazer a diferença na vida daqueles jovens, muitos dos quais não tinham muitas expectativas de mudar de vida. Espero ter conseguido, naqueles três anos que por lá estive, ajudar alguns daqueles jovens a ver que poderiam ir muito mais longe.
Eu vim de uma geração que lutou contra os militares, contra a corrupção. Uma geração que acreditava na utopia de um mundo melhor, com pessoas mais íntegras. E ao longo da minha graduação sempre vi a escolha das homenagens nas formaturas ser algo sempre feito com base na história de vida (no caso de patronos) e na competência do professor (no caso do paraninfo e homenageados).
E foi com profundo espanto e decepção que descobri que os alunos daquela universidade sempre escolhiam como patrono algum político da cidade, desde que ele pagasse a festa da formatura deles. Isso, para mim, é corrupção. Jovens venderem a homenagem em troca de uma festa era tudo o que eu não esperava ver em jovens. Sempre acreditei que jovens são a parcela da população que tem a obrigação de ser a referência ética de uma sociedade (porque, infelizmente, com a idade, as pessoas tendem a se tornar mais "flexíveis", tolerantes, pragmáticas). Afinal, se os jovens não forem "melhores" que os mais velhos, qual a esperança do mundo melhorar?
Ao descobrir essa prática, eu sempre mostrava para aqueles jovens a minha indignação por eles se venderem por tão pouco. E foi justamente de uma das últimas turmas para a qual lecionei lá que tive uma grata surpresa. Eu já havia sido homenageado em algumas turmas. Mas os alunos daquela turma, com um ar de satisfação, aquele sorriso de saber que era o correto a ser feito, me convidaram para ser "paraninfo e patrono" da turma deles. Eu ainda questionei: mas eu não tenho dinheiro para ajudá-los na formatura. Mas eles fizeram questão de me manter com os dois.
Esse foi um dos melhores momentos da minha vida como professor. Não pelo ego de ter sido escolhido, embora nunca seja algo ruim ser lembrado pelos alunos. Mas, principalmente, por ter conseguido influenciar aqueles jovens a não vender a opinião deles, por ter conseguido introspectar em pelo menos alguns deles um valor em que realmente acreditava. E no qual ainda acredito.
Ser professor pode não ser a profissão mais bem paga no mundo. E as vezes é bem cansativo. Mas conseguir chegar em casa com a satisfação de ter feito algo de bom para o mundo, para a sociedade, e, principalmente, para jovens, é sempre profundamente motivador!

terça-feira, 28 de abril de 2015

Educação para o futuro do Brasil

Na última eleição fiquei muito decepcionado ao ver um jovem de grande universidade, que se achava politizado, falar a seguinte frase: "é claro que o governante X não vai ter compromisso com a educação, porque o governante X tem compromisso com a indústria". Como é possível alguém, que se diz politizado, falar tamanha asneira??? Como é possível ainda aceitarmos estudantes, políticos e sindicalistas fazendo discursos que estão atrasados mais de um século?
A era do operário inculto, mero seguidor de ordens, acabou há muito! Há mais de 50 anos o mundo conheceu o pensamento enxuto (ou lean), onde o que faz a empresa crescer são trabalhadores inteligentes, criativos, questionadores. O mundo não precisa mais de "mão de obra": os robôs hoje são melhores e mais baratos que mãos. O que as indústrias precisam do ser humano hoje é do cérebro! Só que tem gente que ainda acha que vivemos no século XIX, antes até da revolução de Ford, revolução totalmente revista pelo Lean...
Os países que cresceram nas últimas décadas no mundo o fizeram graças à uma excelente educação. São exemplos gritantes o Japão e a Coreia do Sul, onde uma indústria de alta tecnologia os fizeram sair do terceiro mundo e chegar ao primeiro em algumas décadas. Indústria estabelecida graças à colaboração de operários muito bem preparados, com excelente formação. A educação desses dois países é inquestionavelmente boa. Assim, respondendo ao comentário insano do estudante durante a eleição: "caro, se o governante X tivesse compromisso com a indústria, ele investiria MUITO em educação, porque a indústria no Brasil perde muito hoje por causa da incapacidade de sua mão de obra de viver nesse mundo de produção de alta tecnologia e produtividade". Nossos operários não aumentam produtividade há décadas, isso é praticamente único em todo o mundo. Sem aumento de produtividade, a indústria não consegue aumentar os salários, e por isso seguimos com baixos rendimentos aos operários e com indústrias em crise recorrente. E o futuro será ainda mais negro se não revertermos essa situação trágica da nossa educação hoje.
Mas a tendência, infelizmente, não é boa. Estamos ainda andando para trás. Em matéria da revista Exame de 15/04, podemos ver que o Brasil é o país da América Latina onde mais jovens não terminam o nível médio. Eu disse o PIOR DA AMÉRICA LATINA, pior que países como Nicarágua, Bolívia e El Salvador, só para dar três exemplos. E para ser ainda mais triste a notícia, essa situação PIOROU entre as gerações: a geração nascida nos anos 80 desistia menos do ensino médio que a geração nascida em meados dos anos 90. Em resumo, tudo está péssimo e a tendência aponta para piorar.
Eu acredito, totalmente, que a única solução para o Brasil mudar é educação. Com educação de qualidade teremos uma população esclarecida, que conseguirá cuidar melhor da sua saúde, planejar melhor a sua vida, votar melhor e ser mais produtivo em suas empresas. E isso geraria um ciclo virtuoso na nação. Mas os governantes atuais, infelizmente, não querem boa educação, pois quanto menos competente é o povo, mais depende da esmola do governo e mais facilmente vende seu voto.
Além disso, a linha Marxista que tomou de assalto nossas faculdades de educação e faz uma lavagem cerebral em nossos professores, os fazendo cultuar Paulo Freire, um cara que pensou 5% em educação e 95% em ditadura de esquerda, que na verdade nunca esteve nem aí com as crianças, só as usando para sua "revolução", só faz piorar o ensino no país. Não precisamos de professores que fiquem pregando uma linha ideológica, não precisamos de sindicatos de professores que usem essa massa para manipular a mídia usando professores, e seus alunos, como se fossem meros brinquedos em favor de seus partidos antidemocráticos. Precisamos de educação de qualidade, professores que queiram ensinar conteúdos e não impor visões ultrapassadas do mundo, professores que sejam valorizados por salários decentes, mas que façam jus a estes salários se comprometendo de VERDADE com o aprendizado de nossas crianças, não aceitando ser marionetes de políticos e sindicatos corruptos.
Sem mudarmos essa realidade, sem a sociedade enxergar a importância fundamental da educação para o futuro do Brasil, seguiremos sendo, para sempre, o "país do futuro", futuro que nunca chegará. Precisamos de um pacto nacional pela educação, um pacto de verdade, com governantes que queiram um povo mais preparado e mais culto (não apenas em slogans!), com uma população que entenda que qualidade de ensino é essencial para o futuro de nossas crianças e jovens e com professores que rejeitem seguir sendo usados como marionetes de partidos que representam o passado, o atraso e a falta de democracia

Veja também
Vídeo A educação que o Brasil precisa - TedX UNICAMP
Professores em greve: que decepção!
Os professores, os salários absurdos e a infeliz realidade brasileira
Uso político dos sindicatos e da UNE


Série Bobeiras educativas:
- Que tal trabalhar para ganhar?
- Salário ou responsabilidade?
- Um sorriso de uma criança é tudo...
O que as escolas não ensinam
- Psicologismo agudo
- Um tapinha não dói
- O MEC mente - e a secretaria de educação de São Paulo ajuda
- Idade inicial
- idade inicial - a visão de um professor
- Português correto: alunos  e educadores
- Não ser meritocrático
- Foco em universidades
- Trote: vide aqui
- Bullying: primeiro post aqui, com novo comentário aqui
- Aprovação automática: vide aqui
- Novos conteúdos: vide aqui
- Flexibilidade:  vide aqui
- Livros didáticos

E também:
- Greve nos transportes
- Greve ou férias II: o absurdo dos sindicalistas
- Greve ou férias?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Aos meus grandes professores

Sou muito crítico com professores irresponsáveis, que deixam seus alunos sem cuidados e sem aulas por greves muitas vezes com somente motivações políticas. E também critico as bobeiras educativas, que tanto andam prejudicando os jovens de hoje.
Mas isso não quer dizer que não sou grato aos meus professores. E queria nominar aqui os mais memoráveis, muitos dos quais não tenho contato há décadas, mas que adoraria poder abraçar e dizer um grande obrigado!
Vou começar falando de quatro professoras do Ateneu Brasília, em Santos, onde estudei do maternal à quarta série, lá no início dos anos 70. Uma pequena escola, mas que me ensinou a ser um bom aluno...
Tudo começa com a Tia Tânia, que foi minha amada professora do pré, e teve a sensibilidade de indicar que eu deveria entrar um ano antes do previsto no primeiro ano (coisa que os educadores de hoje não conseguem entender, vide aqui).
Na primeira série tive a Tia Carmem Lúcia, carinhosa, doce, e, ao que me recordo, bonita. Ela me introduziu ao mundo das letras, com seus ditados cheios de "na outra linha, parágrafo, letra maiúscula".
Na segunda tive uma das maiores responsáveis por ter conseguido fazer uma excelente faculdade: a "brava" tia Catarina, também diretora da escola. Foi com ela que decorei toda a tabuada, algo do qual me orgulho até hoje. Tudo decorado com lições enormes, repetindo cada tabuada dezenas de vezes. Valeu muito!
Na quarta a tia Eliane me apresentou ao mundo das equações, com quadradinhos ao invés de X. E com ela descobri que teria dificuldade em alguma coisa: inglês. "Good morning, class. Good morning, Miss Kelly. This is the pencil. That is the pen".
Entre quinta e oitava estudei no Olavo Bilac, escola municipal santista. E a professora mais marcante foi, sem sombras de dúvidas, a Alice Maria, de português. Ela dava aula com prazer. E sem falsa educação, nos ensinou logo ao adentrar no quinto ano, onde ficava o "mijatório"... Foi ali que aquela imagem da tia angelical se transformou na imagem de uma professora, mulher normal.
No nível médio, que cursei no excelente Colégio do Carmo, em meados dos anos 80, os destaques eram o Iba, o professor de química doidão, que fumava e bebia, e dizia se transformar em Samanta após as 22hs. E que dava uma ótima aula. E o Duarte, de física, sério e rígido, que jogava a caneta de quem quer que fosse pela janela (terceiro andar) se a pessoa fosse escrever enquanto ele explicava. E que odiava o Uno, que ele chamava de botinha ortopédica e adorava usar como símbolo de ponto material.
Na faculdade, a professora mais marcante foi a Cecilia. Doce, educada, responsável, preparava as aulas bem, mas dava provas também "marcantes". Cecilia que me acompanhou por mais que 12 anos como professora (depois mestrado e doutorado) e que hoje é minha "colega" de trabalho. Mas não posso deixar de falar também no Franzin, o cara que mostrou como era o mercado de verdade e nos presenteava com seus incríveis conhecimento e experiência e no Ari, o professor mais "alegre" da matemática, com seu ouvido biônico, seus comentários brilhantes, suas aulas incríveis e suas provas impossíveis!
À todos vocês, e também à vários outros que não tive como citar, para não fazer um texto gigante, meu muitíssimo obrigado. Valeu de verdade!

Bobeiras educativas:

O que as escolas não ensinam
- Psicologismo agudo
- Um tapinha não dói
- Que tal trabalhar para ganhar?
- Salário ou responsabilidade?
- Idade inicial
- Português correto: alunos  e educadores
- Não ser meritocrático
- Foco em universidades
- Trote: vide aqui
- Bullying: primeiro post aqui, com novo comentário aqui
- Aprovação automática: vide aqui
- Novos conteúdos: vide aqui
- Flexibilidade:  vide aqui
- Livros didáticos