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terça-feira, 21 de abril de 2015

Tancredo: um choro de 30 anos!

Faz agora quase exatamente trinta anos em que eu chorei pela primeira vez por causa de política. E talvez o meu choro mais intenso, convulsivo. Há 30 anos, em um domingo a noite, enquanto eu assistia sozinho na sala de fundos de casa um programa (acho que era BJ Mackey, um caminhoneiro com seu chimpanzé), ouvi primeiro o baile do clube Portuários de Santos parar a música, algo muito inesperado. Em seguida, tudo se explicou: a TV interrompeu a programação para noticiar a morte de Tancredo Neves. E eu desabei em lágrimas... Foi a primeira vez que vi um sonho político desmoronar por completo.
O Brasil viveu por mais de 20 anos sob os militares. Eu já nasci em meio à ditadura. Era uma vida ruim aquela onde não podíamos falar nada sobre o governo com medo de alguém ouvir e denunciar a família. E aí veio a luta pelas diretas-já, o maior movimento político que este país já viveu, e se não conseguimos votar para presidente, conseguimos pelo menos que ele fosse civil e escolhido pelo congresso. Até o fim da ditadura o Brasil só tinha dois partidos: a Arena, que apoiava os militares e o Movimento democrático brasileiro (MDB) onde estava toda a oposição. Quando ficou claro que a Arena iria perder, parte dela criou uma dissidência, a Frente Liberal, que virou depois o PFL e hoje é o DEM. E em uma composição, o líder das diretas, Tancredo, aceitou como seu vice um membro da Frente Liberal, que sempre tinha apoiado os militares: Sarney. Então, para mim e para a maioria do povo, Tancredo representava a mudança, Sarney representava a Arena, o continuísmo.
Tancredo Neves: o pai da democracia
O fato é que os militares não estavam ainda 100% convictos em entregar o poder. A cada vez que o PT aparecia com suas bandeiras vermelhas, o quartel tremia. E a democracia só chegou porque o Tancredo trabalhou como bom mineiro, muito e pela calada, sentindo os quartéis, conversando com todos e deixando claro que quem governaria era ele, um cara que os militares sabiam ser sensato. Tancredo estava doente e precisava se tratar: mas recebeu informações que os militares estavam atuando para não deixar o Sarney assumir (um cara que os tinha traído) se o Tancredo fosse internado. Então Tancredo segurou sua internação até quando pode, até o dia da posse, quando a transição já tinha se configurado, quando os ministros militares já tinham sido demitidos. Mas atrasou tanto seu tratamento que não conseguiu nem vestir a faixa, já tendo que ser internado às pressas. Tancredo, em resumo, deu sua vida pela democracia no Brasil, foi um herói que morreu simbolicamente no dia do nosso maior herói da pátria, Tiradentes. Na verdade, eu e muitos achamos que ele já tinha morrido antes, mas pelo peso da data, resolveram esperar para divulgar neste dia. Mas isso não muda nada sua atitude heroica: Tancredo foi o grande responsável pela volta da democracia em nosso país.
Tancredo Neves era um político íntegro como poucos, como aquele grupo que tanto faz falta hoje: Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Mário Covas. Foram eles que através da luta justa, da luta política, enfrentaram os militares de frente. Foram eles que lideraram as diretas. Políticos com história, com vontade de ver o país mudar, com convicções. Tancredo ainda tinha seu jeitão mineiro que o ajudava a ser bem aceito em vários meios, desde os militares, a Arena, até os mais radicais da oposição. Tancredo foi um herói que nunca poderemos esquecer.
Aquele era um momento de esperança. De acreditar em um país diferente. De acreditar na força do povo e da democracia. Tancredo encarnava muito bem esse papel. Mas aí veio o Arenista Sarney, depois o Collor e agora vivemos sob a ditadura vermelha: que pena, Tancredo, que pena que seus sonhos e os sonhos de tantos brasileiros da minha geração tenha acabado nessa ditadura atual que destrói e assalta o futuro de nossa nação.
Só nos resta é esperar por outro Tancredo que consiga se impor à estes políticos corruptos de hoje e que coloque nosso país de novo na trilha da democracia e do desenvolvimento. O Brasil merece um futuro melhor, o Brasil merece ter políticos como Tancredo Neves de novo nos liderando rumo ao progresso.

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Queen
 


sábado, 26 de novembro de 2011

Trapalhões na luta contra a ditadura

Nossa "elite intelectual" escolhe seus mocinhos e seus bandidos por simpatia, e não com base na verdade. E isso ainda era mais forte na época da ditadura.
Sempre ouvia falar bem do Caetano e do Gil e mal do Roberto Carlos na infância, porque o Roberto compactuava com a ditadura. Mas foi só depois da ditadura cair que soube que a frase
"Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história para contar, de um mundo tão distante"
eram os caracóis do Caetano que estava exilado na Inglaterra, Caetano que o Roberto fez questão de visitar. Vamos e venhamos, se o cara era considerado o rei, fazia um sucesso danado e fosse assim tão alienado, porque iria fazer uma música em homenagem à alguém perseguido pela ditadura? É, o Roberto não merecia aquela perseguição, mas na verdade os intelectuais nunca gostaram de quem faz sucesso, é uma opinião elitista de quem nunca vai gostar de nada que o povão gosta!
Mas o tema aqui não é Roberto, mas Os Trapalhões. Sim, o grupo de palhaços mais incrível que esse país já teve. O grupo com um paulista que veio do circo (Dedé), um autêntico sambista carioca (Mussum, que antes cantava no grupo Originais do Samba), um mineirinho típico (Zacarias) e um nordestino pobre mas esperto, com um quê de Carlitos, mas brasileiríssimo (o Didi). Eles agradavam todas as idades, com humor leve, simples e com cara do nosso país. E foram sucesso por duas décadas não apenas na TV, mas também no cinema, onde eram, ano após ano, a maior bilheteria.
Os chatos pseudo-intelectuais jamais assumiriam que os trapalhões lutaram contra a ditadura. Sempre irão citar aqueles diretores de cinema chatíssimos, que só eles conseguiam assistir e não tinham nenhum impacto no povo. Mas revendo "Os saltimbancos trapalhões" agora, filme de muito sucesso na época, fiquei abismado ao perceber tão claramente uma cena: enquanto toca "Todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco, (... ) não há nada a temer", a plebe explorada se rebela contra o dono do circo, que acaba dividindo o poder. Claro, chatos intelectuais, o texto é inspirado na peça do Chico Buarque, por sua vez traduzido de texto francês. Mas a peça, senhores inteligentes, era uma coisa para poucos filhinhos de ricos. Já o filme dos trapalhões, foi visto por mais de 5 milhões de pessoas, só no cinema!
O detalhe importante - e nada discreto - é que atrás do dono do circo está aberta não uma lona, mas a bandeira do Brasil! Nada mais claro, nada mais evidente, a metáfora é explícita! Os trapalhões tinham muito mais a perder que os estudantes rebeldes que faziam ações terroristas que se acham heróis (vide aqui), e não deixaram de mostrar sua opinião! É ridículo que nunca vi ninguém da nossa elite esquerdista agradecendo os trapalhões por ter lutado ao lado deles...Ao ver essa cena, fiquei ainda mais feliz por sempre ter sido fã incondicional dos 4 palhaços, palhaços que nunca sairão da minha memória de momentos felizes!

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