Há 70 anos atrás, em 12 de junho de 1946, lá nos altos do Douro, em Trás-os-Montes, nasceu um moleque. Ele era bravo, arteiro, namorador. Desde criança, ajudava na roça, chegou a literalmente quebrar pedra com pé-de-cabra para plantar parreiras. Cuidava de animais, plantava diversas coisas e até trabalhou na Adega da cidade, fabricando o incomparável vinho do Porto.
Em 1964 venho para o Brasil, com pouco estudo, nenhum tostão no bolso, mas muita vontade. Trabalhou em padaria, trabalhou como empregado na feira até que conseguiu, alguns anos depois, ter sua própria barraca. E seguiu na labuta pesada, carregando centenas de caixas de 20 ou mais kg, acordando de madrugada e só chegando do trabalho umas 14hs por mais de 40 anos. E foi nesse trabalho árduo, embaixo de frio, de chuva, ou de sol escaldante, que fez sua vida, construiu seu patrimônio e criou seus três filhos com o conforto que ele não teve na infância. E nunca vi, nesses 45 anos em que com ele convivo, ele lamentar ter trabalhado tanto. Pelo contrário, se eu aprendi alguma coisa com meu pai, foi de ter orgulho de conseguir as coisas com seu próprio esforço!
Com meu pai aprendi como as pessoas são preconceituosas, racistas. Como ele ficava triste quando percebia pessoas que criticavam "esse português" que vem para cá e fica "rico", tirando dos "brasileiros". Povo invejoso, povo injusto. O tal português é um ser humano como eles, que não teve nenhum privilégio na infância, que trabalhou desde muito cedo e que tinha uma rotina de esforço que nenhum daqueles que o invejavam encarariam: tudo o que meu pai conseguiu, qualquer pessoa de qualquer nacionalidade e qualquer raça, conseguiria, se trabalhasse pesado como ele por 40 anos. Mas tem muita gente nesse mundo, e hoje ainda mais, que prefere apontar o dedo e pedir privilégios, usando as desculpas as mais variadas e criticando quem conseguiu as coisas com seu próprio suor.
Com meu pai aprendi a lutar pelo sonho: eu vi ele, literalmente, perdendo os cabelos para conseguir levantar aquela linda casa que construiu para a família. Ele não só pagou, ele literalmente, depois de 12 ou mais horas na feira, ia lá na obra para ajudar a fazer seu sonho real. E, no meio tempo, jogar um tijolo sem querer na cabeça do filho boboca :-D
Com meu pai aprendi muitas lições do mundo real. Não coisas bonitas, românticas, de um mundo cor de rosa. Mas a verdade da vida. As maldades das pessoas. Como devemos ser para sobreviver na selva que é o mundo. E como uso, e repasso, até hoje, seus ensinamentos nada politicamente corretos, somente corretos: "respeite quem te respeita", "quanto mais se abaixa, mais aparece o ...", e por aí vai...
Na minha infância havia a propaganda inesquecível: "não basta ser pai, tem que participar". E meu pai não era só pai, naquela visão antiga de provedor. Depois do trabalho pesado na feira, ele ainda achava energia para jogar bola, brincar de autorama ou de pingue-pongue comigo. Ele sempre arrumou nossas bicicletas, enchia os pneus, limpava o quadro, regulava as marchas. Meu pai, participava.
Com meu pai aprendi que se você quer ter algo, tem que economizar ao máximo e de toda a forma. E que temos que ter as coisas para nós, para nosso futuro, não para mostrar para os outros. Meu pai, jamais, foi um esbanjador: aprendi com ele que sempre temos que dizer que temos muito menos, para não despertar cobiça ou inveja. E sigo, direitinho esses ensinamentos financeiros.
Com meu pai aprendi que um pai prepara e confia em seu filho. Sempre que podia, eu ia com ele para a feira, porque aprendia muito. Ele me ensinou a fazer contas mais rapidamente, de cabeça. Ele me ensinava, sempre, como pensava nos preços que ia cobrar e quais estratégias usava. Ele me explicava porque tinha comprado cada coisa. Ele me ensinava estratégias de vendas e marketing que hoje vejo consultores que cobram fortunas de multinacionais falando como se fossem grandes novidades. E, desde os 10 anos, ele confiava em mim para contar toda a féria (o faturamento), somar as compras e ver o resultado: quase virei contador por causa dessa experiência deliciosa que ele me proporcionou.
Com meu pai eu só não aprendi a derrubar corações. Seu sucesso com a mulherada, mesmo sendo humilde, mesmo estando sujo da feira, mesmo careca e barrigudo (mas com músculos que eu nunca cheguei perto), realmente sempre foi um mistério para mim. O que eu via de sorrisos de freguesas, olhos brilhando, etc., realmente era inacreditável. Ele não precisava fazer esforço: uma fala, um olhar, sei lá, já deixava a mulherada bamba :-D Sei que o frustrei por não ter sido seu sucessor nesse sentido, mas tudo indica que seu neto irá honrar o avô :-)
Bom, pai, o que eu posso dizer? Obrigado por tudo. Que bom que o senhor hoje pode comemorar seus 70 anos aí na sua terrinha, matando as saudades de Alijó, de Presandães, e daqueles nomes engraçados que os Borges adoravam ficar falando nos encontros da família no chalé dos avôs. Aproveite muito, porque o senhor fez por merecer cada prazer que hoje tem. E muitas felicidades nos próximos 70 anos que vem por aí :-)
Veja também:
Pai Herói
Um simples português
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A verdade tem que ser dita, sem medo de polêmicas. Tentando discutir as coisas com profundidade, sem me preocupar em ser politicamente correto.
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domingo, 12 de junho de 2016
terça-feira, 11 de junho de 2013
Pai Herói
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| A capa do disco da novela |
Bom, mas não é sobre novela que este post quer falar. Hoje é dia 12 de junho e é aniversário do meu pai. Um cara simples, de origem humilde e que nunca teve pretensão de se colocar como alguém fora do normal. Mas meu pai também teve seu momento de herói.
Ok, ele não veio numa nave espacial de um planeta distante: veio em um navio velho de um país distante. E não se disfarçava atrás de um óculos: vivia sua vida cotidiana atrás de uma barraca de "frutas-verduras-legumes-batatas-e-ovos". Mas ele também teve seus momentos de heroísmo.
Durante boa parte da minha infância eu morei em uma casa que para mim sempre será o sinônimo de "minha casa". Ali aprendi a ser o que sou, ali muito me diverti, muito sofri, ali eu cresci. E tínhamos ao lado uma família que sempre foi, digamos, "não muito amiga". Eu brincava com o menino, mas sempre foi aquele com quem eu menos simpatizei. Já havia uma birra de famílias velha, se não me engano até meu vô já não se dava muito bem com o vô deles algumas décadas antes. E por um desses motivos fúteis, indescritíveis e ridículos, nossas famílias realmente sempre foram pouco amáveis entre si. Convivíamos civilizadamente, convidávamos por educação para as festas, mas nunca foram realmente amigos...Entre nossas casas tinha um muro de 2m de altura. E eles tinham um cachorrão pastor alemão de dar medo.
Um dia o avô deles estava fazendo algo no telhado, usando uma escada. E, de repente, veio o estrondo e a gritaria. O avô tinha caído da escada e estava deitado ao chão com a cabeça ensanguentada. Meu pai:, que nem era assim tão amigo do cara, já com mais de 30, gordinho até, pulou aquele muro de 2m de uma única vez, sem nem pensar no cachorro que poderia estar solto. Não sei como meu pai deu aquele salto, pois eu nunca consegui pular de uma vez nem 50cm... E meu pai pegou o senhor ensanguentado e o trouxe para nosso carro. Todo mundo estava em pânico, ninguém conseguia ligar nosso carro. com o nervoso Eu tinha lá meus 15 anos e sempre fui mais racional do bando: fui, liguei o carro e tirei da garagem. E meu pai levou o senhor para o hospital que, graças a Deus, apesar do baita tombo, não teve sequelas.
Em resumo, para salvar alguém de quem ele nem gostava muito, meu pai pulou um muro de 2m de uma vez, não se preocupou em enfrentar um pastor alemão de 1m de altura, e não se preocupou nem mesmo em sujar seu carro com sangue.
Eu adoro meu pai por ser um homem trabalhador, simples e por sempre ter me ensinado a viver no mundo real. Mas essa passagem mostra que meu pai também tem um alma de herói. Parabéns ao meu pai herói por mais este aniversário.
(abaixo a música Pai, de Fábio Jr.)
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terça-feira, 28 de maio de 2013
Pais devem aceitar um fato: as crianças vão sofrer
Abaixo um belo texto sobre educação de filhos que retirei do site da Veja. Se quiser ler o texto completo com toda uma boa formatação, visite o site deles clicando aqui.
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Meu filho, você não merece nada!
Quem te faz feliz?
Não fuja da dor
Psicologismo agudo
As escolhas da vida
Você pode chegar lá
Um mundo insano
Prá que esperar o meteoro? (QueNerd)
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O projeto Educar para Crescer – iniciativa do Grupo Abril, ao qual está ligada a Editora Abril, que publica VEJA — promoveu um debate nesta terça-feira, em São Paulo, sobre o papel dos pais no processo de formação de seus filhos. Para isso, convidou a psicanalista Magdalena Ramos, responsável pelo núcleo de família do Instituto Sedes Sapentiae, e a psicopedagoga Vera Barreira, orientadora pedagógica da Escola da Vila. Do encontro, saiu uma importante constatação: os pais estão excessivamente preocupados com a felicidade de seus filhos e, por isso, têm dificuldades para impor limites e dizer "não" a eles. "É um grande equívoco achar que, dando tudo o que seu filho pede, você vai evitar que ele sofra ou se frustre. A falta de limites cria crianças mimadas, mandonas e com problemas de socialização", disse Magdalena. "Seu filho vai se frustrar e chorar, querendo você ou não. Por isso, aceite isso e imponha limites." Confira a seguir orientações das especialistas:
'Aceite um fato: em algum momento, seu filho vai sofrer'
Os pais se preocupam muito com a felicidade de seus filhos. Não há, é claro, nada de errado nisso. O problema aparece quando a preocupação excessiva leva os pais a atender todos os desejos das crianças. Isso é um grande equívoco e pode acarretar sérios problemas à socialização delas. É preciso impor limites e aceitar que, em algum momento, seu filho vai chorar e sofrer.Comentário de Magdalena Ramos: "Atendo no consultório muitos pais que se sentem culpados por ficar pouco tempo com seus filhos e que, por isso, têm dificuldades para dizer 'não'. É preciso mostrar autoridade e impor limites. Isso é diferente de autoritarismo: não é preciso berrar ou gritar, apenas mostrar quem manda."
'Menos tarefas e mais diversão para as crianças'
Por manter uma rotina atribulada e dispor de pouco tempo para os filhos, muitos pais consideram que encher o dia das crianças com atividades extraclasse é a melhor solução, uma forma de compensação. Não é. As crianças estão cumprindo agenda de executivos, quando, na verdade, deveriam ter mais tempo livre para utilizar a imaginação e descobrir como se entreter sozinhas.Comentário de Magdalena Ramos: "Hoje, as crianças são hiperestimuladas. Mas, para o próprio desenvolvimento adequado delas, precisam de tempo para brincar, correr e se divertir."
'Comer e dormir não são castigos: são necessidades'
Comer e dormir são necessidades básicas de todo ser humano — e também das crianças. Desde cedo, elas devem aprender a comer e dormir nas horas certas. Isso é fundamental para seu desenvolvimento.Por isso, essas ações não podem ser usadas como moeda de troca ou punição. É o que os pais fazem quando dizem, por exemplo: "Se você não comer tudo, não usará o computador" ou ainda "Você se comportou mal e, por isso, vai para a cama mais cedo".
Comentário de Magdalena Ramos: "Há crianças que não se alimentam bem no almoço ou jantar porque os pais deixam que comam ‘besteiras’ sempre que desejam. Então, novamente, vejo pais com medo de impor limites, deixando-se levar pelo impulso de satisfazer sempre as crianças."
'Nem toda brincadeira é bullying'
Segundo especialistas, boa parte das crianças não sabe mais lidar com piadas e provocações dos colegas. O que antes era uma simples brincadeira, hoje pode ser encarado como bullying. Os pais, obviamente, têm culpa nisso, ao tentar resolver problemas que os filhos poderiam solucionar sozinhos.Comentário de Vera Barreira: "Qualquer brincadeira sofrida pelos filhos faz com que os pais liguem na escola para pedir explicações. O correto, quando falamos de crianças com 10 anos de idade ou mais, é instruí-las a se defender sozinhas: argumentar com o colega, comunicar professores e coordenador. Se nada der certo, aí sim os pais devem agir. Ao resolver de imediato qualquer problema apresentado pelos filhos, os pais tiram deles a chance de aprender a cuidar de si próprios."
'Pais devem estimular a criança a agir como... criança'
A frase "os pais devem estimular a criança a ser criança" pode parecer redundante, mas traz um ensinamento importante. Segundo a psicanalista Magdalena e a psicopedagoga Vera, é comum os pais – ainda que sem a intenção – estimularem os filhos entre 9 e 12 anos de idade a se comportar como adultos. É preciso novamente impor limites e guiá-los para o caminho adequado: o da infância.Comentário de Vera Barreira: "Lembro de um pai que, atendendo a pedidos da filha de 10 anos, fez para ela uma 'balada', com luz baixa etc. As meninas estavam todas arrumadas, vestidas como 'adultinhas', esperando que os garotos as tirassem para dançar, enquanto os meninos não estavam nem aí: eles só queriam saber de jogar bola. Isso é exemplo de uma conduta inadequada do pai."
'A escola deve seguir os valores da família'
A escolha da escola dos filhos é uma decisão crucial para a formação deles. Nesse caso, a orientação é simples: busque uma instituição que siga os mesmo valores de sua família. Isto é, procure uma unidade que adote aquilo que você procura: conteúdo mais voltado ao vestibular, foco na socialização e no desenvolvimento integral da criança, regras mais ou menos rígidas e assim por diante.Comentário de Vera Ramos: "Vá conhecer a escola, fique atento ao discurso que ela vai apresentar e procure conhecer outros pais com filhos no local. Muitas instituições adotam discursos parecidos, mas agem completamente diferente na prática."
quarta-feira, 27 de março de 2013
Um nordestino, um favelado e uma história de amor: Gonzaga
O diretor Breno Silveira já fez um filme que eu odiei: "2 filhos de Francisco". Não consigo aceitar um filme que retrata um pai que acha que os filhos pequenos tenham que se expor à riscos (e até à morte), só porque ele quer que eles sejam famosos. Odiei o filme porque é um péssimo exemplo que foi visto por milhões e pode ter vendido uma ideia errada do que é ser um bom pai.
Mas Breno Silveira se redimiu. Dirigiu uma outra história biográfica. Uma história de dois personagens fantásticos da nossa música. Luiz Gonzaga, o rei do baião e Gonzaguinha, seu filho.
Cada um dos personagens já merecia uma trilogia só para si. Gonzagão, o pai, que nasceu pobre, foi discriminado quando morava lá no sertão do nordeste e, depois de muito ralar, conseguiu sucesso nacional. Gonzagão que teve uma vida cheia de dramas, dificuldades, mas que nunca deixou sua simplicidade e nunca deixou de cantar com prazer. Musicalmente, sou fã do Gonzagão: ele trouxe para o resto do Brasil toda a riqueza da música de raiz do nordeste. E não tem como não amar "Asa Branca" e outros clássicos que ele tão bem entoava com sua sanfona.
Gonzaguinha nasceu e cresceu em uma favela carioca, em meio ao crime e ao samba. Teve uma vida complicada desde criança, pois perdeu a mãe com dois anos e tinha um pai que sempre estava em turnê pelo Brasil. Sofreu, se sentiu rejeitado, chorou. Mas conseguiu transformar essa dor em poesia, poesia de primeiríssimo nível. Eu mesmo posso dizer que uma das músicas que mais gosto, até hoje, é "O que é, o que é":
"viver, e não ter a vergonha de ser feliz;
cantar, e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita"
O filme é de uma beleza incrível. Tem atores excelentes: o que faz o Gonzagão é sanfoneiro de verdade e tem estilo e carisma compatíveis com quem quer retratar; e o que faz o Gonzaguinha é tão parecido em tudo que até assusta, parecendo o próprio ressucitado. É um filme que mostra a vida como ela é, sem querer pintar ninguém como mocinho, nem como vilão. Mostra como a vida pode ser dura para todos, como nós, humanos, conseguimos ser complicados. Acima de tudo, o filme fala da relação entre pai e filho, um pai simples, humilde, que sempre viu como sua maior obrigação "não deixar faltar nada para seu filho" e um filho que sempre esperou um pai Gelol: "não basta ser pai, tem que participar". É um conflito de gerações, uma mudança de visão de mundo, onde não há verdade, não há certo nem errado.
Enfim, é uma obra-prima recente, que passou primeiro como mini-série na Globo e há pouco foi lançada em DVD. Vale pela história, vale pela excelente música que pontua todo o filme e vale pela sensibilidade em mostrar uma relação entre pai e filho onde amor e conflito habitam os mesmos corações.
PS. Vale ressaltar que o grande sucessor do Gonzagão também está prestes a nos deixar: segundo a própria família, Dominguinhos está em coma irreversível. Será outra perda gigante da música brasileira, tão carente de músicos desse gabarito nos últimos tempos.
PS2. Dominguinhos faleceu em 23/07/2013: mais um brasileiro que vai deixar muitas saudades em quem gosta do país e de música de verdade.
Outros bons programas:
Gandhi: um filme incrível sobre uma pessoa extraordinária
O novo cinema brasileiro (com O homem do futuro) e o Jabor
Roque Santeiro
A "boa" da terça
O Silvio Santos é coisa nossa!
Eu gosto do Faustão!
Senna
O discurso do rei
A rede social
Rio
Up
Trapalhões na luta contra a ditadura
Mas Breno Silveira se redimiu. Dirigiu uma outra história biográfica. Uma história de dois personagens fantásticos da nossa música. Luiz Gonzaga, o rei do baião e Gonzaguinha, seu filho.
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| Um filme lindo sobre música e amor entre pai e filho |
Gonzaguinha nasceu e cresceu em uma favela carioca, em meio ao crime e ao samba. Teve uma vida complicada desde criança, pois perdeu a mãe com dois anos e tinha um pai que sempre estava em turnê pelo Brasil. Sofreu, se sentiu rejeitado, chorou. Mas conseguiu transformar essa dor em poesia, poesia de primeiríssimo nível. Eu mesmo posso dizer que uma das músicas que mais gosto, até hoje, é "O que é, o que é":
"viver, e não ter a vergonha de ser feliz;
cantar, e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita"
O filme é de uma beleza incrível. Tem atores excelentes: o que faz o Gonzagão é sanfoneiro de verdade e tem estilo e carisma compatíveis com quem quer retratar; e o que faz o Gonzaguinha é tão parecido em tudo que até assusta, parecendo o próprio ressucitado. É um filme que mostra a vida como ela é, sem querer pintar ninguém como mocinho, nem como vilão. Mostra como a vida pode ser dura para todos, como nós, humanos, conseguimos ser complicados. Acima de tudo, o filme fala da relação entre pai e filho, um pai simples, humilde, que sempre viu como sua maior obrigação "não deixar faltar nada para seu filho" e um filho que sempre esperou um pai Gelol: "não basta ser pai, tem que participar". É um conflito de gerações, uma mudança de visão de mundo, onde não há verdade, não há certo nem errado.
Enfim, é uma obra-prima recente, que passou primeiro como mini-série na Globo e há pouco foi lançada em DVD. Vale pela história, vale pela excelente música que pontua todo o filme e vale pela sensibilidade em mostrar uma relação entre pai e filho onde amor e conflito habitam os mesmos corações.
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| Dominguinhos: outro músico que vai deixar saudades |
PS2. Dominguinhos faleceu em 23/07/2013: mais um brasileiro que vai deixar muitas saudades em quem gosta do país e de música de verdade.
Outros bons programas:
Gandhi: um filme incrível sobre uma pessoa extraordinária
O novo cinema brasileiro (com O homem do futuro) e o Jabor
Roque Santeiro
A "boa" da terça
O Silvio Santos é coisa nossa!
Eu gosto do Faustão!
Senna
O discurso do rei
A rede social
Rio
Up
Trapalhões na luta contra a ditadura
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Viva Portugal
Hoje não é apenas dia dos namorados. É também o dia do meu pai.
Ano passado falei sobre esse grande homem em um post: Um simples português
Hoje quero falar rapidamente sobre minhas origens: sou filho de português por pai e bisneto de três portugueses pela mãe (e uma bisavó espanhola). Enfim, sou 87,5% português.
E admiro muito minha origem. Não só as comidas, que já decantei neste post. Meu pai era de uma família muito humilde que veio com uma mão na frente outra atrás tentar a vida no Brasil. E todos os tios que para cá vieram, sem ter nada além de vontade e determinação, prosperaram. O povo português, em especial os que aqui vieram, tem essa característica marcante: lutam muito pelo que querem, trabalham de sol a sol, não querem benefícios do governo, querem apenas a chance de ganhar a vida com seus esforços. E chegam lá!
Foi muito bom viver três meses em Portugal e conviver com aquele povo tão diferente, mas tão próximo no coração. Aquele sotaque que me lembra a casa da vó, aqueles pratos com bacalhau, as batatas, aquele jeito que consegue ser reservado e carinhoso, tudo ao mesmo tempo. Foi ótimo rever a casa de pedra, provavelmente medieval, onde meu pai morou e entender o quão mais difícil foi a vida que ele teve, mas ele nunca se lamenta por isso! Pelo contrário, sempre olha para trás com muito orgulho.
O português é um povo engraçado: adora sofrer e canta o fado com tanta paixão quanto nós gritamos gol para a seleção. Lamentar é um esporte nacional e me lembra muito aquele jeitinho sempre down da minha vó com seu "de hoje a um ano, se até lá eu chegar" que ela falou por uns 30 anos ininterruptos. Mas se o português adora chorar e sofrer, também é muito forte e lutador: minha vó tinha 80 anos e não reclamava de andar alguns quilômetros três vezes ao dia para levar café, almoço e janta para meu avô no hospital, que não queria comer nada que não fosse feito por ela. Exemplo de força, exemplo de fidelidade, únicos! E também é um povo que sabe ser muito feliz com pouco, família e amigos, tremoços, uma roda com piadas, algumas músicas de desgarrada (quem acha que fazer improvisos em desafios, com um cantor ultrajando o outro, é coisa tipicamente nordestina, melhor conhecer as tradições portuguesas).
Parabéns, meu pai, por mais um aniversário. Obrigado por tudo. Obrigado por trazer para este lado do atlântico parte do que hoje sou eu. Valeu mesmo!
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Ano passado falei sobre esse grande homem em um post: Um simples português
Hoje quero falar rapidamente sobre minhas origens: sou filho de português por pai e bisneto de três portugueses pela mãe (e uma bisavó espanhola). Enfim, sou 87,5% português.
E admiro muito minha origem. Não só as comidas, que já decantei neste post. Meu pai era de uma família muito humilde que veio com uma mão na frente outra atrás tentar a vida no Brasil. E todos os tios que para cá vieram, sem ter nada além de vontade e determinação, prosperaram. O povo português, em especial os que aqui vieram, tem essa característica marcante: lutam muito pelo que querem, trabalham de sol a sol, não querem benefícios do governo, querem apenas a chance de ganhar a vida com seus esforços. E chegam lá!
Foi muito bom viver três meses em Portugal e conviver com aquele povo tão diferente, mas tão próximo no coração. Aquele sotaque que me lembra a casa da vó, aqueles pratos com bacalhau, as batatas, aquele jeito que consegue ser reservado e carinhoso, tudo ao mesmo tempo. Foi ótimo rever a casa de pedra, provavelmente medieval, onde meu pai morou e entender o quão mais difícil foi a vida que ele teve, mas ele nunca se lamenta por isso! Pelo contrário, sempre olha para trás com muito orgulho.
O português é um povo engraçado: adora sofrer e canta o fado com tanta paixão quanto nós gritamos gol para a seleção. Lamentar é um esporte nacional e me lembra muito aquele jeitinho sempre down da minha vó com seu "de hoje a um ano, se até lá eu chegar" que ela falou por uns 30 anos ininterruptos. Mas se o português adora chorar e sofrer, também é muito forte e lutador: minha vó tinha 80 anos e não reclamava de andar alguns quilômetros três vezes ao dia para levar café, almoço e janta para meu avô no hospital, que não queria comer nada que não fosse feito por ela. Exemplo de força, exemplo de fidelidade, únicos! E também é um povo que sabe ser muito feliz com pouco, família e amigos, tremoços, uma roda com piadas, algumas músicas de desgarrada (quem acha que fazer improvisos em desafios, com um cantor ultrajando o outro, é coisa tipicamente nordestina, melhor conhecer as tradições portuguesas).
Parabéns, meu pai, por mais um aniversário. Obrigado por tudo. Obrigado por trazer para este lado do atlântico parte do que hoje sou eu. Valeu mesmo!
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sábado, 11 de junho de 2011
Um simples português
Ele é uma pessoa simples. Muito simples. Nunca o vi filosofando sobre a vida ou querendo entender o porquê das coisas. Ele vive e busca ser feliz. E ponto. Tendo dinheiro, comida e mulher, estará feliz!
Teve uma infância muito difícil, com muito trabalho e pouca comida, lá no interior de Portugal. Mas tudo indica que foi, mesmo assim, uma infância feliz. Comendo uva do pé e correndo por aquela região linda. Diz a lenda que até leite de cabra tomou direto da fonte, mas ele nega. Também dizem que um muro caiu em cima quando estava “encostado” nele com uma namoradinha. Se é verdade, ele nunca vai assumir, mas que ele sempre a-do-rou mulher, é fato.
Com mulher, ele realmente é um caso a parte. Ele não é alto, desde os 30 foi um pouco gordinho e tinha quase nenhum cabelo (embora fosse magérrimo e cabeludo com 20). Mas sempre fez um sucesso incrível com mulheres. Eu queria, mesmo, saber o segredo, mas isso eu não consegui aprender :-( Lá estava ele, sujo e muito suado no trabalho, e sempre surgiam mulheres se derretendo do nada. É fato, ele tem olhos esverdeados e um bom papo, mas não pode ser só isso...
Como bom português, sempre foi muito flexível. Veio ao Brasil com 18 anos, e virou, rapidamente, santista. Torce para o Brasil na copa (menos, é claro, quando é contra Portugal, aí o coração se divide) e para o Santos nos campeonatos. E conta piadas de Português, porque só é feliz quem sabe rir de si mesmo...
Não ficou reclamando que era pobre, que não tinha estudos, não fez protestos, nem se fez de vítima do mundo: sabia que o caminho de tudo é o trabalho. E trabalhou, trabalhou muito. Foram mais de quarenta anos na feira. Carregando caixas em alta madrugada e ficando mais de 12 horas sem parar gritando, correndo e lutando pela vida. Fez uma história na feira de Santos: o “Zé do tomate”, o 6376, é quase uma lenda. Ele podia reclamar, pois adora dar uma “choradinha”. Mas, de fato, nunca deixou de trabalhar muito. E nunca cobrou de sua família o esforço que fez para lhes dar conforto e fartura, coisas que ele não teve de criança.
Nunca vi alguém separar, com tanta simplicidade, o pessoal do profissional. O feirante ao lado “marretando” o tomate, o fazendo perder muito dinheiro, e carregar aquelas dezenas de caixas de volta, para tentar vender no dia seguinte. Ele xingava o cara enquanto fazia as contas do prejuízo. Mas logo em seguida estava lá em conversa animada com o mesmo. Eu sempre o admirava por conseguir fazer isso com tamanha propriedade. Apesar de achar certo, nunca me imaginei capaz de tamanho desprendimento.
Sua habilidade com comércio é quase inata, só não é melhor que a habilidade com mulheres. Como conseguiu levar seus filhos tão longe vendendo frutas e legumes? Ele conseguiu. Todos os três bem educados e com boa faculdade. E ainda conseguiu chegar aos 65 com uma vida confortável, agora já aposentado. Ele merece aproveitar os próximos 65 muito. Com dinheiro, comida e mulher, que é o que realmente importa.
Parabéns, pai! E obrigado por me mostrar as verdades da vida.
Feliz 65.
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