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sábado, 11 de abril de 2020

7 décadas!

Olavo Bilac nos anos 50
A década de 50 foi a década da recuperação do mundo após a Segunda Guerra mundial. Foi a era do "baby boom", explosão de nascimentos com a volta dos soldados para casa. Na música, Elvis fazia sucesso no mundo. O Brasil viveu muitas mudanças, com a morte de GV e o governo JK e a construção de Brasília, "a capital da esperança". O Brasil de Pelé foi campeão pela primeira vez na Suécia. Em Santos, logo no início da década, nascia, no Marapé, uma menina, a quinta de um casal simples descendente de portugueses e espanhóis. Nessa década a menina ficou muito doente de pulmão, quase morreu e teve que tomar leite doado pelo governo diariamente. Talvez por isso ficou razoavelmente alta em uma família de baixa estatura e nunca gostou dos apelidos que ganhava de criança por isso. E foi uma das melhores alunas em suas salas até o fim da quarta série primária, no Olavo Bilac. A TV engatinhava no Brasil e para essa menina significava TeleVizinho. As vezes, escondida, desejava o bife que só seu pai tinha para comer. Refrigerante, só às quintas. E maçã, era só uma vez por ano.

Jovem Guarda Especial - YouTube
Jovem Guarda: uma grande paixão
A década de 60 foi muito atribulada. Auge da guerra fria no mundo, disputas entre Estados Unidos e a União Soviética criou guerras em muitos lugares, em especial a guerra do Vietnã. O Brasil começou com Jânio, teve uma tentativa de tomada de poder pela esquerda e acabamos na ditadura militar, que ficou ainda mais dura no fim da década. No futebol, a seleção de Garrincha foi bicampeã da copa e o Santos de Pelé bicampeão do mundo. No mundo, surgiam Beatles e Rolling Stones e no Brasil a Jovem Guarda foi um movimento muito importante. Embora a menina, inteligente que era, quisesse estudar, não lhe foi permitido ingressar no ginásio. Por outro lado, seu pai a levava para o carnaval e para apresentações na rádio: em uma delas, o sapato voou ela embirrou. Nessa década veio a primeira paixão, o Roberto Carlos, e os primeiros empregos, incluindo na Beneficência Portuguesa, hospital tradicional da cidade. As irmãs se casaram e vieram os primeiros sobrinhos, muitos deles ela ajudou a cuidar quando bebês. E no fim dessa década, ela conheceu seu futuro marido.

Roberto Carlos romântico nos anos 70:
neste disco, Lady Laura
A década de 70 começou com o tricampeonato com o Pelé no México. Foi a década do "Milagre Econômico" no Brasil. O casamento veio logo no início, depois os dois filhos e muito trabalho para ser a mãe exemplar que sempre foi. Morou em um chalé, em um apartamento e depois em uma casa confortável, todas sem sair do Marapé. Foi o auge do Roberto Carlos tornando-se um cantor romântico: "Detalhes", "Além do Horizonte", "Amigo", "Lady Laura", "Café da Manhã", "Meu Querido, Meu Velho, Meu amigo" são dessa década. No radinho de pilha que ficava na janela da cozinha, todo dia, as 11hs da manhã, ela escutava no "Roberto Carlos - Especial", na Rádio Cacique, músicas desde a Jovem Guarda, até "Café da Manhã". Na TV, estouravam novelas como "Irmãos Coragem", "Selva de Pedra", "Pecado Capital" e  "Dancing Days". O filho quase morreu com 1 ano, e a filha teve um forte sarampo, mas ambos os filhos terminaram a década muito saudáveis. Ambos estudavam no "Ateneu Brasilia", pequena escola do bairro do Marapé. Enquanto sua filha demorava horas para comer, seu filho comia demais. Por outro lado, enquanto o filho ficava a maior parte do tempo parado, sua filha era bem mais agitada. Mas foi seu filho que quebrou o braço nessa década, enquanto sua filha enfiou uma tampa de caneta no nariz. Muita brincadeira de bolinha de gude na mesa redonda da sala, enquanto a filha desenhava roupas em suas "modelos" de papel. O filho iniciou no tênis e, por três anos, tentou e nunca aprendeu. Ambos brincavam quase diariamente na rua, com sua turminha inesquecível: Si, Ro, Pa e cia com a filha, Papa, Duda, Beto, Betinho e Teta com o filho. Entre os sobrinhos, dezenas, há uma linda paixão recíproca com a tia sempre alegre e carinhosa. O bolo de cenoura era a guloseima que ela mais fazia nessa época, mas fazia também pudim de leite, pavê de sonho de valsa, manjar de ameixa e muitas outras coisas. Também eram memoráveis o picadinho de batata com salsicha e os filés de pescadinha com purê às quintas-feiras, além das bacalhoadas na forma fulgor.

Lp Julio Iglesias - De Nina A Mujer - R$ 60,00 em Mercado Livre
Julio Iglesias: de niña a mujer
A década de 80 foi uma década de muitas mudanças. O mundo viu a queda do muro de Berlim e o fim das ditaduras comunistas da Europa. Nos esportes, vimos o Brasil ser destaque no basquete, com Oscar, Paula e Hortênsia, no vôlei e na F1, com o tricampeonato do Piquet e o primeiro título do Senna. Na TV, destacaram-se as novelas "Guerra dos Sexos", "Roque Santeiro" e "Vale Tudo". No Brasil, vivemos o movimento das "Diretas Já", a eleição e morte do Tancredo e terminamos elegendo o Collor. Começou mais nova geração da família Francisco, com os primeiros filhos dos sobrinhos. Em casa, ouvia-se, além de Roberto Carlos, na década em que criou "Emoções", muito Julio Iglesias. Os filhos, chegando a juventude, eram fãs do Menudo e Michael Jackson, além de muito pop e rock nacional. Deixando a menina preocupada, eles iam a shows e bailes no Portuários quase toda semana. A filha foi no show do Menudo em um dia com muita chuva na Vila Belmiro e o filho foi segurança de um show da Xuxa, na mesma Vila famosa. Primeiras paqueras, namoros e festas de 15 anos. Filhos mudando de escola, primeiro para o Olavo Bilac, depois para Primo e Carmo e depois filho indo estudar fora da cidade. Ao final da década, veio a separação. Seu bolo de coco era conhecido por todo mundo da família como algo delicioso. Também eram inesquecíveis as lasanhas com leite e de berinjela e as carnes moídas e bifes enrolados que mandava para o filho na faculdade.

Trabalho duro

A década de 90 começou com o confisco da poupança e depois vieram Itamar, Plano Real e FHC. O mundo viveu um sem-fim de crises financeiras, mas o Brasil saía da crise e da inflação e voltava a crescer. Senna ganhou mais dois títulos e morreu ainda no início da década. O Brasil foi tetra-campeão  nos Estados Unidos em 1994, com a horrorosa seleção da "era Dunga". Na TV, "Barriga de Aluguel", "O Rei do Gado", "Renascer" e "Por Amor" fizeram grande sucesso. Roberto Carlos fazia músicas pouco inspiradas homenageando gordinhas, coroas, baixinhas e caminhoneiros. Foi uma época de muito trabalho em empregos que exigiam muito e pagavam muito pouco, em estacionamento e em cursinho. Além disso, ela retomou os estudos que nunca quis parar e formou-se no nível médio. Os filhos começaram a trabalhar, se formaram, namoraram, noivaram e casaram. Ambos sempre foram ótimos alunos, e seguiram sendo bons profissionais e pessoas corretas, graças aos ensinamentos da mãe. Ela assistiu ao desfile das escolas de samba de Santos nessa década, na época o segundo melhor do Brasil. Ela começou a fazer uma maria-mole que até hoje é o maior sucesso entre seus conhecidos.

UTI Neonatal da Maternidade de Campinas inicia desbloqueio a ...
Chegada dos netos
Os anos 2000 começaram com o ataque de 11 de setembro e a guerra contra o islã. Vivemos o maior crescimento econômico do mundo. O PT chegou ao poder com o Lula. O Brasil foi pentacampeão em 2002 e o time do Santos ganhou inúmeros títulos. Na TV, "Laços de Família", "O Cravo e a Rosa" e "O Clone" faziam sucesso. O Roberto Carlos fazia um sem fim de músicas tristes por causa da perda da Maria Rita. A menina de Santos se aposentou. Foi uma década de chegadas e partidas: chegaram as duas netas, em 2006 e 2008 e a década terminou com a despedida a seu pai.


A imagem pode conter: céu, oceano, atividades ao ar livre, água e natureza
Vista da cidade do Porto pelo Rio Douro
Os anos de 2010 foram os anos das crises econômicas, com muito desemprego e ainda a década das nada memoráveis olimpíadas e copa do mundo do Brasil, com o traumático 7 X 1. Por outro lado, o Santos voltou a ganhar uma Libertadores e vários outros campeonatos. Na TV, "Amor a vida", "A dona do Pedaço" e "Avenina Brasil" foram destaque. O Roberto Carlos volta às paradas com "Esse cara sou eu".  Chegou a mais nova geração da família Francisco: os tataranetos da Vó Ud. Nessa década chegou seu neto no início de 2011 e os três cresceram bastante. E ela se despediu de uma irmã. Além disso, ela conheceu o carnaval do Rio de Janeiro, os Estados Unidos com os sobrinhos e Portugal com os filhos.
Informações sobre o novo coronavírus (COVID-19) - Pfarma
Pandemia é a pior no último século

E agora começam os anos 2020, sua oitava década. O início do ano foi realmente muito diferente, um sem fim de situações inesperadas e radicais varrendo o mundo todo. Que seja uma década de muitas aventuras. E que venha muito mais ainda na vida daquela menininha santista bonita, inteligente, espontânea e sorridente.



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sábado, 23 de dezembro de 2017

O paninho de natal

Muitos se preocupam porque não tem dinheiro suficiente para dar os melhores presentes para quem ama. Pessoalmente, quando ouço alguém questionar se o presente está "no nível" do homenageado, acho que tem algo que não faz sentido. E quando falamos de Natal, então, principalmente: na data que homenageamos alguém que é reconhecido pelo amor e humildade, qual seria a lógica de precisar ser rico para distribuir presentes caros?
Entendo que essencial é não esquecermos de quem amamos. Precisamos mostrar que a pessoa é importante, que nos preocupamos com ela. Se o valor do presente for importante para quem recebe, essa pessoa não deveria ser importante para quem o oferece.
Queria aqui exemplificar o quanto o valor não é nada, quando falamos em carinho e amor fraternal. Em meus quase 47, eu já ganhei presentes de tanta gente e de todos os valores possíveis e imagináveis. Mas sempre que chega o natal, o  presente que sempre vou olhar, que sempre me dá imensas e doces recordações é o presente abaixo, que nem foi para mim...
O meu inesquecível presente de Natal
Não sei se todos conseguem "entender" o que está na foto. Explico: é um pano de centro de mesa, feito de "saco", aquele pano simples de algodão que se usa normalmente como pano de chão e hoje ficou comum comprarmos aos montes nos semáforos. O pano tem alguns desenhos bem simples, primários até, e um crochê ao redor também básico, já com algumas falhas.
E porque algo tão simples, com custo quase desprezível, é tão significativo? Por que guardo esse presente dado para minha mãe há mais de 30 anos, que eu pedi para guardar comigo? Porque esse é o típico presente que minha avó Ana dava, um para cada família dos seus filhos. Quando ela chegava em casa, ela trazia um ou dois panos como esse e dava para minha mãe. Minha vó era alguém muito simples, que nunca teve nenhum luxo, mas ele investia um bom tempo para fazer esses paninhos para dar para família. Esse paninho retrata muto a minha vó: simples, discreta, carinhosa. E é esse paninho que eu, todo ano, dou uma olhadinha no Natal para lembrar como não é dinheiro o mais importante.
Esse ano cuidei para que fosse lavado a mão, com todo cuidado, para que siga comigo por mais 30 anos ou mais. O paninho da minha avó, o paninho de Natal.
Que todos tenham um grande natal. E que ganhem e deem muitos paninhos. Mesmo que não tenham muito dinheiro, lembrem-se que sempre há um jeito de fazer os outros felizes.

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domingo, 14 de maio de 2017

Exagerada mãe

Minha mãe é um exagero só, em tudo que faz.
Sempre foi exagerada em sentimentos. Carinhosa além da conta, ficava muito muito brava por muito pouco, um ciúme, muitas vezes despropositado, fora do comum. Chorava muito sem motivo ou ficava feliz, inexplicavelmente, cantando a manhã inteira. Para algumas palavras, até certo ponto comuns, reage como se estivesse ouvindo uma ameaça de morte. Para alguns comentários muitas vezes inocentes e sem nenhum outro significado, sempre imagina motivações maquiavélicas. Quando embirra com alguém, fica o tempo todo tentando achar maldades em qualquer ação. Mas para o Roberto Carlos, o rei de belas músicas e muita malícia, sempre devotou um respeito tão exagerado, como se ele fosse um anjo inocente e puro, que diz não ver suas picardias de homem bem sem-vergonha.
O exagero da minha mãe chega ao seu topo com comida. Se ficarmos 1h na casa dela, vamos ter que almoçar (ou jantar, ou café, ou lanche, ou ceia, o que couber no horário). Em 2h, terá uma refeição e algo em seguida. Se ficarmos 10h, serão 10h ininterruptas de comidas, em sequencia: ao sair do café da manhã vem um sem fim de doces e frutas, conectado com uns biscoitos que vem enquanto ela está preparando o almoço, que vai ter 3 carnes diferentes que ela espera que comamos, cada uma, em uma porção que é o dobro do que comemos no total em uma refeição normal, temos que comer o feijão que ela fez especial, o arroz, os 4 tipos de salada e 3 legumes, e por aí vai. Lógico que após o almoço virão as frutas, as 3 sobremesas que ela fez e umas outras 3 que ela comprou. Nem saímos da mesa, já virão os chocolates e doces enquanto ela prepara o lanche da tarde, cheio de pães deliciosos que ela comprou, mas as 18h o jantar já estará a mesa. E se sairmos as 19h, ela ainda vai insistir em levar algo para "se tiver fome" depois dessa maratona gastronômica. E se não provarmos tudo que ela fez ou comprou "com tanto carinho", serei o filho malvado que não dá valor e só fica fazendo charminho para deixá-la triste.
Mas o real grande exagero da minha mãe é seu coração. Cabe tanto amor, tanto afeto, tanta preocupação. Ela se preocupa com todos e tudo, mesmo com aquilo que não precisaria ou com aqueles que não mereceriam. É capaz de perdoar gente que fez coisas que eu jamais perdoaria. É capaz de ser carinhosa com um estranho, com um desconhecido. Com crianças, então, é sempre um total doce, com um tratar tão especial, que não há criança que não se apaixone por ela em seu primeiro contato. Com os filhão aqui, então, nunca deixa de ser a mãe exageradamente zelosa e carinhosa que sempre foi, se preocupando com o que comi, com o que vou fazer, em eu não me meter em confusão e não brigar com gente má, e por aí vai. Quantas vezes não sorrio ao vê-la agindo como se ainda fosse aquele gordinho bobo de 40 anos atrás (ok, ainda sou gordinho e bobo, mas agora já sou velho o suficiente para cuidar das minhas coisas). Ela é uma mãe exagerada até no mundo virtual: muitas vezes, mesmo sem entender nada, curte tudo o que eu escrevo e ainda comenta.
Obrigado, meu Deus, por ter exagerado tanto na escolha daquela que me pôs no mundo e que me acompanha com esse exagerado carinho. Um exagero de obrigado por tudo para minha mãe. E um exageradamente feliz dia das mães para a velhinha da praia. Te adoro, mama, exageradamente.

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domingo, 12 de junho de 2016

70 anos, careca e barrigudo

Há 70 anos atrás, em 12 de junho de 1946, lá nos altos do Douro, em Trás-os-Montes, nasceu um moleque. Ele era bravo, arteiro, namorador. Desde criança, ajudava na roça, chegou a literalmente quebrar pedra com pé-de-cabra para plantar parreiras. Cuidava de animais, plantava diversas coisas e até trabalhou na Adega da cidade, fabricando o incomparável vinho do Porto.
Em 1964 venho para o Brasil, com pouco estudo, nenhum tostão no bolso, mas muita vontade. Trabalhou em padaria, trabalhou como empregado na feira até que conseguiu, alguns anos depois, ter sua própria barraca. E seguiu na labuta pesada, carregando centenas de caixas de 20 ou mais kg, acordando de madrugada e só chegando do trabalho umas 14hs por mais de 40 anos. E foi nesse trabalho árduo, embaixo de frio, de chuva, ou de sol escaldante, que fez sua vida, construiu seu patrimônio e criou seus três filhos com o conforto que ele não teve na infância. E nunca vi, nesses 45 anos em que com ele convivo, ele lamentar ter trabalhado tanto. Pelo contrário, se eu aprendi alguma coisa com meu pai, foi de ter orgulho de conseguir as coisas com seu próprio esforço!
Com meu pai aprendi como as pessoas são preconceituosas, racistas. Como ele ficava triste quando percebia pessoas que criticavam "esse português" que vem para cá e fica "rico", tirando dos "brasileiros". Povo invejoso, povo injusto. O tal português é um ser humano como eles, que não teve nenhum privilégio na infância, que trabalhou desde muito cedo e que tinha uma rotina de esforço que nenhum daqueles que o invejavam encarariam: tudo o que meu pai conseguiu, qualquer pessoa de qualquer nacionalidade e qualquer raça, conseguiria, se trabalhasse pesado como ele por 40 anos. Mas tem muita gente nesse mundo, e hoje ainda mais, que prefere apontar o dedo e pedir privilégios, usando as desculpas as mais variadas e criticando quem conseguiu as coisas com seu próprio suor.
Com meu pai aprendi a lutar pelo sonho: eu vi ele, literalmente, perdendo os cabelos para conseguir levantar aquela linda casa que construiu para a família. Ele não só pagou, ele literalmente, depois de 12 ou mais horas na feira, ia lá na obra para ajudar a fazer seu sonho real.  E, no meio tempo, jogar um tijolo sem querer na cabeça do filho boboca :-D
Com meu pai aprendi muitas lições do mundo real. Não coisas bonitas, românticas, de um mundo cor de rosa. Mas a verdade da vida. As maldades das pessoas. Como devemos ser para sobreviver na selva que é o mundo. E como uso, e repasso, até hoje, seus ensinamentos nada politicamente corretos, somente corretos: "respeite quem te respeita", "quanto mais se abaixa, mais aparece o ...", e por aí vai...
Na minha infância havia a propaganda inesquecível: "não basta ser pai, tem que participar". E meu pai não era só pai, naquela visão antiga de provedor. Depois do trabalho pesado na feira, ele ainda achava energia para jogar bola, brincar de autorama ou de pingue-pongue comigo. Ele sempre arrumou nossas bicicletas, enchia os pneus, limpava o quadro, regulava as marchas. Meu pai, participava.
Com meu pai aprendi que se você quer ter algo, tem que economizar ao máximo e de toda a forma. E que temos que ter as coisas para nós, para nosso futuro, não para mostrar para os outros. Meu pai, jamais, foi um esbanjador: aprendi com ele que sempre temos que dizer que temos muito menos, para não despertar cobiça ou inveja. E sigo, direitinho esses ensinamentos financeiros.
Com meu pai aprendi que um pai prepara e confia em seu filho. Sempre que podia, eu ia com ele para a feira, porque aprendia muito. Ele me ensinou a fazer contas mais rapidamente, de cabeça. Ele  me ensinava, sempre, como pensava nos preços que ia cobrar e quais estratégias usava. Ele me explicava porque tinha comprado cada coisa. Ele me ensinava estratégias de vendas e marketing que hoje vejo consultores que cobram fortunas de multinacionais falando como se fossem grandes novidades. E, desde os 10 anos, ele confiava em mim para contar toda a féria (o faturamento), somar as compras e ver o resultado: quase virei contador por causa dessa experiência deliciosa que ele me proporcionou.
Com meu pai eu só não aprendi a derrubar corações. Seu sucesso com a mulherada, mesmo sendo humilde, mesmo estando sujo da feira, mesmo careca e barrigudo (mas com músculos que eu nunca cheguei perto), realmente sempre foi um mistério para mim. O que eu via de sorrisos de freguesas, olhos brilhando, etc., realmente era inacreditável. Ele não precisava fazer esforço: uma fala, um olhar, sei lá, já deixava a mulherada bamba :-D Sei que o frustrei por não ter sido seu sucessor nesse sentido, mas tudo indica que seu neto irá honrar o avô :-)
Bom, pai, o que eu posso dizer? Obrigado por tudo. Que bom que o senhor hoje pode comemorar seus 70 anos aí na sua terrinha, matando as saudades de Alijó, de Presandães, e daqueles nomes engraçados que os Borges adoravam ficar falando nos encontros da família no chalé dos avôs. Aproveite muito, porque o senhor fez por merecer cada prazer que hoje tem. E muitas felicidades nos próximos 70 anos que vem por aí :-)

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

O amor e suas lições em Frozen

Conheço muitas pessoas que adoram se dizer inteligentes porque assistem a filmes europeus, profundos. E que acham que todos que acompanham Hollywood são idiotas. Mas o fato é que a profundidade dos filmes está muito mais em que vê do que no filme em si. E se é difícil ficar acordado vendo aquelas chatices francesas, vai ser difícil aprender algo dormindo...
Eu sempre tento ver a profundidade por trás dos filmes que assisto. Assumo que diferentemente de um jovem com quem tive o prazer de trabalhar, não consigo ver nenhuma lição profunda em Rambo, mas isso talvez seja uma limitação pessoal. Mas há muitas lições em filmes de grande público e, em especial, há muitas lições em desenhos da Disney.
Neste post me proponho a discutir as lições por trás do último mega-sucesso da Disney: Frozen. Desde a primeira vez que vi esse desenho, percebi que seria histórico, um filme muito bem realizado tecnicamente , tanto visual como musicalmente, e, principalmente, com um belo enredo e roteiros. Frozen é para mim o melhor desenho Disney desde "Rei Leão" e a "A bela e a fera", dois clássicos.
E que lições Frozen trás? Para mim, a mais bonita é a lição de amor entre irmãos. Irmãos se amam, irmãos se respeitam, mas as vezes a vida os obriga a ficar distantes, as vezes cria mágoas que os afastam. E isso os deixa com o coração duro: seja por acharem que estão sendo desprezados sem motivo (Anna), seja por serem obrigados a se afastar pelo bem de quem amam (Elsa). E o filme é uma metáfora clara, linda: se por brigas o coração de um irmão congelar, qual a única solução? O que pode fazer o coração de um irmão descongelar? Só o amor, é claro!
Mas Frozen ainda ensina mais. Primeiro é um belíssimo contraponto àquela visão romântica da Disney, que todas as meninas encontrarão um príncipe perfeito - e rico - e serão felizes para sempre. O fato do príncipe ser rico garantir felicidade se perpetua até para o sr. Grey, mas isso é outra história :-D Frozen primeiro detona a ideia de que todo príncipe, belo, garboso e rico é um bom partido. Depois critica aberta e explicitamente uma menina que acredita em amor a primeira vista. E por último mostra que as vezes o amor que vale a pena está bem ao seu lado, naquele carinha simples, feio, pobre, mas que tem um sentimento sincero. Vejo o tempo todo por aí mulheres correndo atrás dos seus príncipes sem perceber que o Kristoff das suas vidas está bem ao seu lado. E sendo um representante desse grupo de homens que não é rico, nem elegante, nem bonitão, fiquei feliz ao ver minha classe bem representada nessa bela animação.
Enfim, Frozen é divertido, é bem feito e trás muitas lições para quem o assiste. É um filme que vale muito a pena.

Outros bons programas:
Um desenho imperdível para gamers: Detona Ralph
O jogo da imitação com o pai da computação
Belo filme: rude, drogado e genial Sebastião
Um nordestino, um favelado e uma história de amor: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha
Gandhi: um filme incrível sobre uma pessoa extraordinária
Thatcher: uma mulher única
O novo cinema brasileiro (com O homem do futuro) e o Jabor
Roque Santeiro
A "boa" da terça
O Silvio Santos é coisa nossa!
Eu gosto do Faustão!
Senna
O discurso do rei
A rede social
Rio
Up
Trapalhões na luta contra a ditadura

domingo, 11 de maio de 2014

A senhora está aqui!

É mais um segundo domingo de maio que não estou aí,
É mais uma ausência
É mais um presente que eu vou ficar devendo (alguma hora eu pago)...

Mas, o importante, é que a senhora está aqui,
A cada segundo, a cada instante,
Está aqui quando me preocupo com o povo,
Está aqui quando não aceito benefícios próprios que não acho justos,
Está aqui quando tento fazer só o que é certo,
E quando perdoo o outro também.
Está aqui em cada piada que eu faço com os pequenos
E em cada bronca que neles dou por coisas erradas que fazem.

Por muitas e muitas vezes eu faço algo e reflito em seguida
Eu já vi alguém fazer o mesmo há algumas décadas atrás...

A senhora se faz presente no sorriso fácil
Na alegria descompromissada
E até nas vezes que eu tento cozinhar
Mas não no resultado, porque sou um amador com panelas

Está aqui quando me enervo com o sabão por baixo da esponja,
Com uma toalha em cima da cama
Ou com pratos deixados na mesa.
Cuidar do lar aprendi com a melhor dona de casa do mundo.

Está aqui até nos momentos em que não concordo...
Quando vejo uma criança feia
Que a senhora insiste que não existe,
No ódio que tenho por pessoas más e egoístas,
Por mais que tenha ouvido que odiar é errado,
E quando negocio mil vezes antes de gastar um centavo,
Embora a senhora sempre tenha amado pouco o dinheiro.
Por mais que pense diferente,
Sempre que eu faço esse tipo de coisa, lembro da minha mãe...

Porque eu sou o que me fizeram
Porque eu carrego 50% dos genes seus,
E, principalmente, porque você me cuidou
Com todo o amor do mundo
com mais atenção do que seria possível,
Me deu carinho, me deu cuidado
E me deu, principalmente,
Lições e valores.
E tudo isto nunca vai sair daqui de dentro,
De dentro de mim,
Onde moram um amor
E um sentimento de dívidas eternos.

Um viva para minha mãe,
A mãe que já tá velhinha, mas sempre bonitona,
A mulher de sorrisos e broncas fáceis
E com um amor no coração
Insuperável!

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Boas memórias de natal

domingo, 6 de outubro de 2013

É muito bom ter uma grande família

Tive muitas grandes sortes na minha vida. Uma das maiores é ter uma família muito grande dos lados do meu pai e da minha mãe e poder conviver com praticamente todos ao longo da minha infância e adolescência. Todos moravam em um raio de 10km, entre Santos e São Vicente. E muito do que aprendi e do que sou, devo aquele delicioso convívio tão próximo com meus 4 avós, minhas duas dezenas de tios e várias dezenas de primos :-)
Vou falar um pouco hoje do meu lado Borges. Tenho muito orgulho de ser um Borges. Tenho muito orgulho de ser neto do intelectual José Borges e da sempre batalhadora Ana Maria. E de ter os tios que eu tenho:
- o "contador de histórias Viriato", de fala sempre macia, que veio nos anos 50 para o Brasil, sem nada, foi sapateiro, feirante, empresário e construtor. E sua esposa, a sempre doce tia Conceição. Com seus filhos, mais velhos, não interagi tanto na infância, mas se hoje tenho a carreira que tenho, foi graças ao exemplo do meu primo, que foi meu veterano na UNICAMP e o primeiro familiar que soube que estudou em universidade pública;
- a sempre risonha e carinhosa Tia Júlia, que começou a vida debaixo, chegou a ser doméstica ao chegar no Brasil, mas construiu uma bela (e GRANDE) família junto com meu saudoso tio Fernando, que vez ou outra eu encontrava fiscalizando o ônibus no qual eu dormia nas minhas noites retornando do curso técnico. Carlinhos é o primo que honra a tradição empreendedora dos Borges, grande motivo de orgulho;
- o piadista e visionário empresário Hilário, que se foi tão cedo graças ao odioso cigarro;
- a doce e carinhosa tia Cacilda, minha tia mais próxima na infância, que junto com meu tio Zé, trouxe ao mundo meus amados três primos com os quais brinquei muito enquanto criança. Tios que foram tão cedo embora, mas construíram uma família linda e unida;
- a forte e carinhosa Idália, que sempre tomou as rédeas da vida e é a única que continua seguindo a tradição comerciante da família que quase inteira se aposentou. E que trouxe ao mundo meu outro primo tão próximo e querido.
Só não interagi com um tio Borges, que voltou muito cedo a Portugal e se foi: um dia marcante para mim, quando vi meu pai atender a um telefone e chorar, coisa que nunca tinha visto meu MACHO pai fazer até então. Ali eu percebi que meu pai era gente como eu, e não o super-herói que eu sempre imaginei.Mas fiquei feliz ao poder conhecer minha prima lá em Portugal, a única com a qual não interagi na infância.
Pois é, eu sou uma colcha de retalhos de cada um que me influenciou na vida. No meu jeito de ser, de pensar e de sentir, tem aquela indolência do Vô Zé lendo por horas, a balinha que a vó sempre trazia, os carinhos de todos os tios e tias, a irreverência das "desgarradas", as guloseimas típicas portuguesas, o lado empreendedor e batalhador de toda a família e aquela proximidade da turma de primos, amigos e companheiros de brincadeiras e agitos.
Mas o tempo passa, eu mudei de cidade há décadas e hoje vivo entre correrias de trabalho e o cuidado com os filhos. É tão difícil conseguir ver os Borges com a frequência que deveria...
Mas a quarta geração, os bisnetos do José e da Ana estão se casando. E hoje consegui ir no casamento da minha "priminha", que estava linda de noiva. E foi maravilhoso poder rever tanta gente querida, conversar com as tias Julia, Idália e Conceição, curtir meu pai e o irmão Viriato trocando memórias da "terrinha", rever vários primos, esposas, maridos e filhos. Foi maravilhoso porque amo muito essa gente, porque sinto muito a falta dos bons tempos de todos juntos em Santos e porque é bom de vez em quando voltarmos às nossas origens e lembrarmos de onde viemos e, em resumo, o que somos. Nunca, por mais longe que esteja, deixarei o jeito de ser dos Borges fugir de mim. Valeu família querida que me fez e me faz ser o que sou!

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terça-feira, 11 de junho de 2013

Pai Herói

A capa do disco da novela
É, só quem tem aí por volta de 40 anos tem lembrança do título. Uma novela com uma abertura inesquecível: um quebra-cabeças onde faltava o pai.É uma das primeiras coisas de TV que me lembro, com o casal Tony Ramos e Elizabeth Savala. E a música tema, a linda e tocante Pai do Fábio Jr., é para mim a melhor homenagem que alguém fez à um pai.
Bom, mas não é sobre novela que este post quer falar. Hoje é dia 12 de junho e é aniversário do meu pai. Um cara simples, de origem humilde e que nunca teve pretensão de se colocar como alguém fora do normal. Mas meu pai também teve seu momento de herói.
Ok, ele não veio numa nave espacial de um planeta distante: veio em um navio velho de um país distante. E não se disfarçava atrás de um óculos: vivia sua vida cotidiana atrás de uma barraca de "frutas-verduras-legumes-batatas-e-ovos". Mas ele também teve seus momentos de heroísmo.
Durante boa parte da minha infância eu morei em uma casa que para mim sempre será o sinônimo de "minha casa". Ali aprendi a ser o que sou, ali muito me diverti, muito sofri, ali eu cresci. E tínhamos ao lado uma família que sempre foi, digamos, "não muito amiga". Eu brincava com o menino, mas sempre foi aquele com quem eu menos simpatizei. Já havia uma birra de famílias velha, se não me engano até meu vô já não se dava muito bem com o vô deles algumas décadas antes. E por um desses motivos fúteis, indescritíveis e ridículos, nossas famílias realmente sempre foram pouco amáveis entre si. Convivíamos civilizadamente, convidávamos por educação para as festas, mas nunca foram realmente amigos...Entre nossas casas tinha um muro de 2m de altura. E eles tinham um cachorrão pastor alemão de dar medo.
Um dia o avô deles estava fazendo algo no telhado, usando uma escada. E, de repente, veio o estrondo e a gritaria. O avô tinha caído da escada e estava deitado ao chão com a cabeça ensanguentada. Meu pai:, que nem era assim tão amigo do cara, já com mais de 30, gordinho até, pulou aquele muro de 2m de uma única vez, sem nem pensar no cachorro que poderia estar solto. Não sei como meu pai deu aquele salto, pois eu nunca consegui pular de uma vez nem 50cm... E meu pai pegou o senhor ensanguentado e o trouxe para nosso carro. Todo mundo estava em pânico, ninguém conseguia ligar nosso carro. com o nervoso Eu tinha lá meus 15 anos e sempre fui mais racional do bando: fui, liguei o carro e tirei da garagem. E meu pai levou o senhor para o hospital que, graças a Deus, apesar do baita tombo, não teve sequelas.
Em resumo, para salvar alguém de quem ele nem gostava muito, meu pai pulou um muro de 2m de uma vez, não se preocupou em enfrentar um pastor alemão de 1m de altura, e não se preocupou nem mesmo em sujar seu carro com sangue.
Eu adoro meu pai por ser um homem trabalhador, simples e por sempre ter me ensinado a viver no mundo real. Mas essa passagem mostra que meu pai também tem um alma de herói. Parabéns ao meu pai herói por mais este aniversário.

(abaixo a música Pai, de Fábio Jr.)



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