domingo, 19 de abril de 2020

Maus: a dura história dos judeus na segunda guerra

Há milhares e milhares de textos, livros e filmes sobre o Holocausto. O filme que mais me tocou foi,
Uma das cenas mais tocantes
da história do cinema
sem dúvida, alguma, "A lista de Schindler" do genial e judeu Spielberg, que deve ter ouvido muito sobre as tristezas do Holocausto em sua família. Nunca aceitei a tentativa de grupos de reescrever a história. E acho dantesco aqueles que tentam relativizar o que não é discutível. A Segunda Guerra foi palco de boa parte das maiores atrocidades da história e uma delas, sem dúvida alguma, foi a perseguição dos nazistas aos judeus. Nunca havia sido tão explícito a pregação do ódio, o uso da divisão do povo por um governo para ganhar poder, e o extermínio em massa como uma política de estado. Hitler foi um dos maiores gênios do mal que a humanidade já conheceu e soube usar o marketing político, o discurso social e o ódio como poucos para praticar uma barbárie, com o apoio do seu povo. E, provavelmente, foi quem liderou a maior máquina de extermínio planejado e organizado já existente, com seus campos de concentração, salas de gás e incineradores.É absurdo imaginar que seres humanos sofreram isso. É ainda mais absurdo acreditar que seres humanos aceitaram fazer todas essas atrocidades com outros seres humanos. E quase inacreditável imaginar que há menos de 100 anos atrás tinha gente de país desenvolvido que achava razoável não considerar seres humanos como humanos somente pela sua religião.
Maus - A História de Um Sobrevivente - Saraiva
Excelente!
Mas hoje quero comentar sobre uma história em quadrinhos, Maus, de Art  Spiegelman, ganhador do prêmio Pulitzer. Foi um belíssimo presente que ganhei de um amigo. E devorei os quadrinhos rapidamente, ainda mais neste momento da história no qual o que mais abundam são ações ditatoriais de governos democraticamente eleitos que deveriam defender as constituições. É um gibi muito criativo e curioso: o autor praticamente conta como foi o processo de buscar informações com seu pai, que foi com toda a família para Auschvitz. E conta com uma riqueza crua de detalhes, não só da história em si, mas também da sua tensa relação com seu velho pai, cheio de manias, um daqueles velhinhos totalmente mal humorados e incapazes de qualquer empatia. É muito interessante a total realidade do que é contado, em meio aos personagens reais, mas que são representados como ratos, gatos e porcos. É um dos melhores gibis que já li na vida, talvez só rivalizando com o fantástico "V de Vingança".Quem quer entender bem o que foi ser um judeu durante a segunda guerra, precisa ler esse gibi. Será um grande aprendizado. Vale também pela arte, simples, crua, um preto e branco sem muitos detalhes mas profundamente intenso. Além de tudo, nos faz pensar nas relações familiares, nas complexidades humanas. Maus é uma leitura imperdível. Recomendo fortemente.



sábado, 11 de abril de 2020

7 décadas!

Olavo Bilac nos anos 50
A década de 50 foi a década da recuperação do mundo após a Segunda Guerra mundial. Foi a era do "baby boom", explosão de nascimentos com a volta dos soldados para casa. Na música, Elvis fazia sucesso no mundo. O Brasil viveu muitas mudanças, com a morte de GV e o governo JK e a construção de Brasília, "a capital da esperança". O Brasil de Pelé foi campeão pela primeira vez na Suécia. Em Santos, logo no início da década, nascia, no Marapé, uma menina, a quinta de um casal simples descendente de portugueses e espanhóis. Nessa década a menina ficou muito doente de pulmão, quase morreu e teve que tomar leite doado pelo governo diariamente. Talvez por isso ficou razoavelmente alta em uma família de baixa estatura e nunca gostou dos apelidos que ganhava de criança por isso. E foi uma das melhores alunas em suas salas até o fim da quarta série primária, no Olavo Bilac. A TV engatinhava no Brasil e para essa menina significava TeleVizinho. As vezes, escondida, desejava o bife que só seu pai tinha para comer. Refrigerante, só às quintas. E maçã, era só uma vez por ano.

Jovem Guarda Especial - YouTube
Jovem Guarda: uma grande paixão
A década de 60 foi muito atribulada. Auge da guerra fria no mundo, disputas entre Estados Unidos e a União Soviética criou guerras em muitos lugares, em especial a guerra do Vietnã. O Brasil começou com Jânio, teve uma tentativa de tomada de poder pela esquerda e acabamos na ditadura militar, que ficou ainda mais dura no fim da década. No futebol, a seleção de Garrincha foi bicampeã da copa e o Santos de Pelé bicampeão do mundo. No mundo, surgiam Beatles e Rolling Stones e no Brasil a Jovem Guarda foi um movimento muito importante. Embora a menina, inteligente que era, quisesse estudar, não lhe foi permitido ingressar no ginásio. Por outro lado, seu pai a levava para o carnaval e para apresentações na rádio: em uma delas, o sapato voou ela embirrou. Nessa década veio a primeira paixão, o Roberto Carlos, e os primeiros empregos, incluindo na Beneficência Portuguesa, hospital tradicional da cidade. As irmãs se casaram e vieram os primeiros sobrinhos, muitos deles ela ajudou a cuidar quando bebês. E no fim dessa década, ela conheceu seu futuro marido.

Roberto Carlos romântico nos anos 70:
neste disco, Lady Laura
A década de 70 começou com o tricampeonato com o Pelé no México. Foi a década do "Milagre Econômico" no Brasil. O casamento veio logo no início, depois os dois filhos e muito trabalho para ser a mãe exemplar que sempre foi. Morou em um chalé, em um apartamento e depois em uma casa confortável, todas sem sair do Marapé. Foi o auge do Roberto Carlos tornando-se um cantor romântico: "Detalhes", "Além do Horizonte", "Amigo", "Lady Laura", "Café da Manhã", "Meu Querido, Meu Velho, Meu amigo" são dessa década. No radinho de pilha que ficava na janela da cozinha, todo dia, as 11hs da manhã, ela escutava no "Roberto Carlos - Especial", na Rádio Cacique, músicas desde a Jovem Guarda, até "Café da Manhã". Na TV, estouravam novelas como "Irmãos Coragem", "Selva de Pedra", "Pecado Capital" e  "Dancing Days". O filho quase morreu com 1 ano, e a filha teve um forte sarampo, mas ambos os filhos terminaram a década muito saudáveis. Ambos estudavam no "Ateneu Brasilia", pequena escola do bairro do Marapé. Enquanto sua filha demorava horas para comer, seu filho comia demais. Por outro lado, enquanto o filho ficava a maior parte do tempo parado, sua filha era bem mais agitada. Mas foi seu filho que quebrou o braço nessa década, enquanto sua filha enfiou uma tampa de caneta no nariz. Muita brincadeira de bolinha de gude na mesa redonda da sala, enquanto a filha desenhava roupas em suas "modelos" de papel. O filho iniciou no tênis e, por três anos, tentou e nunca aprendeu. Ambos brincavam quase diariamente na rua, com sua turminha inesquecível: Si, Ro, Pa e cia com a filha, Papa, Duda, Beto, Betinho e Teta com o filho. Entre os sobrinhos, dezenas, há uma linda paixão recíproca com a tia sempre alegre e carinhosa. O bolo de cenoura era a guloseima que ela mais fazia nessa época, mas fazia também pudim de leite, pavê de sonho de valsa, manjar de ameixa e muitas outras coisas. Também eram memoráveis o picadinho de batata com salsicha e os filés de pescadinha com purê às quintas-feiras, além das bacalhoadas na forma fulgor.

Lp Julio Iglesias - De Nina A Mujer - R$ 60,00 em Mercado Livre
Julio Iglesias: de niña a mujer
A década de 80 foi uma década de muitas mudanças. O mundo viu a queda do muro de Berlim e o fim das ditaduras comunistas da Europa. Nos esportes, vimos o Brasil ser destaque no basquete, com Oscar, Paula e Hortênsia, no vôlei e na F1, com o tricampeonato do Piquet e o primeiro título do Senna. Na TV, destacaram-se as novelas "Guerra dos Sexos", "Roque Santeiro" e "Vale Tudo". No Brasil, vivemos o movimento das "Diretas Já", a eleição e morte do Tancredo e terminamos elegendo o Collor. Começou mais nova geração da família Francisco, com os primeiros filhos dos sobrinhos. Em casa, ouvia-se, além de Roberto Carlos, na década em que criou "Emoções", muito Julio Iglesias. Os filhos, chegando a juventude, eram fãs do Menudo e Michael Jackson, além de muito pop e rock nacional. Deixando a menina preocupada, eles iam a shows e bailes no Portuários quase toda semana. A filha foi no show do Menudo em um dia com muita chuva na Vila Belmiro e o filho foi segurança de um show da Xuxa, na mesma Vila famosa. Primeiras paqueras, namoros e festas de 15 anos. Filhos mudando de escola, primeiro para o Olavo Bilac, depois para Primo e Carmo e depois filho indo estudar fora da cidade. Ao final da década, veio a separação. Seu bolo de coco era conhecido por todo mundo da família como algo delicioso. Também eram inesquecíveis as lasanhas com leite e de berinjela e as carnes moídas e bifes enrolados que mandava para o filho na faculdade.

Trabalho duro

A década de 90 começou com o confisco da poupança e depois vieram Itamar, Plano Real e FHC. O mundo viveu um sem-fim de crises financeiras, mas o Brasil saía da crise e da inflação e voltava a crescer. Senna ganhou mais dois títulos e morreu ainda no início da década. O Brasil foi tetra-campeão  nos Estados Unidos em 1994, com a horrorosa seleção da "era Dunga". Na TV, "Barriga de Aluguel", "O Rei do Gado", "Renascer" e "Por Amor" fizeram grande sucesso. Roberto Carlos fazia músicas pouco inspiradas homenageando gordinhas, coroas, baixinhas e caminhoneiros. Foi uma época de muito trabalho em empregos que exigiam muito e pagavam muito pouco, em estacionamento e em cursinho. Além disso, ela retomou os estudos que nunca quis parar e formou-se no nível médio. Os filhos começaram a trabalhar, se formaram, namoraram, noivaram e casaram. Ambos sempre foram ótimos alunos, e seguiram sendo bons profissionais e pessoas corretas, graças aos ensinamentos da mãe. Ela assistiu ao desfile das escolas de samba de Santos nessa década, na época o segundo melhor do Brasil. Ela começou a fazer uma maria-mole que até hoje é o maior sucesso entre seus conhecidos.

UTI Neonatal da Maternidade de Campinas inicia desbloqueio a ...
Chegada dos netos
Os anos 2000 começaram com o ataque de 11 de setembro e a guerra contra o islã. Vivemos o maior crescimento econômico do mundo. O PT chegou ao poder com o Lula. O Brasil foi pentacampeão em 2002 e o time do Santos ganhou inúmeros títulos. Na TV, "Laços de Família", "O Cravo e a Rosa" e "O Clone" faziam sucesso. O Roberto Carlos fazia um sem fim de músicas tristes por causa da perda da Maria Rita. A menina de Santos se aposentou. Foi uma década de chegadas e partidas: chegaram as duas netas, em 2006 e 2008 e a década terminou com a despedida a seu pai.


A imagem pode conter: céu, oceano, atividades ao ar livre, água e natureza
Vista da cidade do Porto pelo Rio Douro
Os anos de 2010 foram os anos das crises econômicas, com muito desemprego e ainda a década das nada memoráveis olimpíadas e copa do mundo do Brasil, com o traumático 7 X 1. Por outro lado, o Santos voltou a ganhar uma Libertadores e vários outros campeonatos. Na TV, "Amor a vida", "A dona do Pedaço" e "Avenina Brasil" foram destaque. O Roberto Carlos volta às paradas com "Esse cara sou eu".  Chegou a mais nova geração da família Francisco: os tataranetos da Vó Ud. Nessa década chegou seu neto no início de 2011 e os três cresceram bastante. E ela se despediu de uma irmã. Além disso, ela conheceu o carnaval do Rio de Janeiro, os Estados Unidos com os sobrinhos e Portugal com os filhos.
Informações sobre o novo coronavírus (COVID-19) - Pfarma
Pandemia é a pior no último século

E agora começam os anos 2020, sua oitava década. O início do ano foi realmente muito diferente, um sem fim de situações inesperadas e radicais varrendo o mundo todo. Que seja uma década de muitas aventuras. E que venha muito mais ainda na vida daquela menininha santista bonita, inteligente, espontânea e sorridente.



Veja também:

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O Corona Chinês e o Sem Teto

Novo Audi A3 Sedan 2021 terá motor 2.0 turbo com 240 cv
Álcool gel contra o Corona
Enquanto os ricos e a classe média se trancam em suas casas confortáveis, o que acontece com a base da pirâmide? Vi que o governo federal conseguiu operacionalizar em tempo recorde o tal apoio de R$ 600 e deve ser louvado por isso. Mas esse apoio não é para a base, é para quem "existe oficialmente", para quem já tem CPF ou Bolsa Família.
Ontem vi uma cena que me tocou o coração: parei o meu carro atrás de um lindo audi no semáforo. Um sem-teto, que estava com sua mulher sentada na praça, com seus 30 ou 40 anos, roupas rasgadas, sujo, foi pedir esmola para o Audi: a contradição da nossa sociedade estava ali em carne, osso e aço, bem na minha frente.
Vi o sem-teto falando e apontando e o cara do Audi deu a garrafa d'água que ele estava bebendo, já no fundo. E o coitado do sem-teto, assim que pegou a água, tomou pelo gargalo e deu para sua mulher. Pelo mesmo gargalo que o cara do Audi, que ele nunca viu, estava tomando.
Mulher distribui água gelada para desabrigados no Rio
Água para quem tem sede
Me senti um babaca, todo preocupado com não tocar em nada, passar álcool gel na mão. A vida da base da pirâmide nunca esteve tão difícil... E para quem está com fome, ou com sede, um tal Corona não é, nem de longe, uma real preocupação.
Temos sim que nos preocupar com o Corona. Temos sim que isolar e proteger os grupos de risco. Mas não podemos esquecer o quanto essa quarentena está afetando a base da pirâmide! São eles os que mais sofrem!

PS. a foto com água é de uma matéria que mostra a senhora na foto dando água para quem mais precisa. Uma bela ação. 

Veja também

A ditadura Corona Virus
A crise econômica mata - e mata muito!
Carta a um ex-amigo que agora prefere seu partido ao povo
A verdade sobre esquerda e direita
O golpe das elites
Marxismo: a ideologia reacionária que leva o mundo para trás
Esquerda usa as "minorias": gays, mulheres, negros...
A pior religião da história
Marxistas: seres do mal
Eles são o mal, o lado negro da força!
Por que o socialismo não dá certo?
O grande "legado" da esquerda ao Brasil!
As misérias de Marx

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Nenhum respeito ou apoio a um deficiente

Frequento um pequeno supermercado de bairro, que fica em um local cheio de universitários, daqueles que adoram defender os "direitos" das "minorias". Lá tem um caixa com alguma deficiência. Ele tem alguma dificuldade para falar e para se movimentar, mas é um cara alegre, simpático e muito prestativo. Por dezenas de vezes foi ele que me atendeu e nunca tive nenhuma queixa.
No último fim de semana, quando cheguei ao caixa com minhas compras percebi que haviam duas filas grandes e, no meio, uma caixa apenas com o cliente em atendimento e ninguém na fila. Achei estranho, imaginei que a caixa tinha sido fechada ou algo assim. Na dúvida, me virei para o lado e perguntei para a última pessoa de uma das filas grandes se a caixa do meio estava fechada. A pessoa me respondeu que estava aberta, mas como o caixa tem "deficiência", as pessoas (inclusive quem me respondeu) preferem ficar nas outras, porque é "mais rápido".
A resposta, assim tão objetiva, me deu tamanha repulsa que não tive nem coragem de dizer obrigado. Foi aí que atentei para o fato que o caixa era aquele deficiente que tantas vezes já tinha me atendido. E, óbvio, entrei atrás da pessoa sendo atendida por ele. Mais uma vez fui bem atendido, ele passou tudo que comprei, me ajudou a colocar em outra sacola algo que estava em um saco rasgado e, como sempre, foi muito educado e prestativo.
Há tempos não me sentia tão mal como brasileiro e ser humano. Quantos, naquelas filas, adoram arrotar por aí que são a favor dos "direitos das minorias" e criticar o governo e a sociedade por não dar oportunidades a quem precisa. No entanto, quando é para eles escolherem entre alguns minutos e apoiar um deficiente, eles de forma monstruosamente egoísta escolhem seus minutos. Agem com um preconceito desmedido e injustificado contra um trabalhador que supera suas limitações e busca, de forma honesta e íntegra, seu lugar na sociedade.
Se esse tipo de situação se repetir mais vezes, é óbvio que o supermercado vai se ver obrigado a demitir o profissional, porque, afinal, um supermercado tem que buscar atender a seus clientes. E se os clientes não querem ser atendidos por esse caixa, ele precisará ser trocado. Eu não culparia o supermercado por isso, mas sim nossa sociedade hipócrita que adora se colocar como defensora dos mais fracos mas que não faz, efetivamente, absolutamente nada para que eles tenham seu espaço no mercado de trabalho.
Há um aprendizado que tive como profissional que nunca vou esquecer: sempre que algo não estava dando certo, meu chefe me dizia: o que VOCÊ vai fazer a respeito. Porque é sempre mais fácil buscar a culpa nos outros, achar a "solução" nos outros. Mas o mundo só vai mudar quando cada um PRIMEIRO fizer o seu melhor, antes mesmo de cobrar os outros. Uma sociedade que realmente quer dar oportunidades a quem mais precisa delas, a quem mesmo com maiores dificuldades trabalha de forma honesta, vai valorizar essa pessoa no exercício de sua profissão. Vai escolher aquela fila para mostrar que QUER ser atendido por essa pessoa e não evitá-la.
Está mais do que na hora de se entender que não se muda o mundo com discursos na Internet, mas com PRÁTICAS no nosso dia a dia.



segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Adeus a Roberto Leal

Certamente, algumas pessoas que pouco me conhecem, de verdade, vão achar muito estranho eu homenagear Roberto Leal. Não sabem elas que eu, como filho de português, por parte de pai, e bisneto de três portugueses (e uma espanhola) por parte de mãe, sou de uma família com forte cultura e tradições portuguesas, de imigração razoavelmente "recente", dado que toda minha origem veio pobre da península Ibérica já no século XX.
Quem tem menos que 40 anos, não tem ideia de como o Brasil mudou. A imigração portuguesa foi muito forte ao longo de todo o século XX. Não é a toa que boa parte dos comerciantes, em especial de padarias, restaurantes e feiras (o caso do meu pai) eram portugueses (realmente portugueses, nascidos na terrinha, não descendentes). E dada a grande quantidade de portugueses no Brasil, nos anos 70 eram comuns muitos quadros de música portuguesa, havia inclusive programas dirigidos a colônia na grande mídia. E o grande ícone desses imigrantes no Brasil era, exatamente, o Roberto Leal. Há duas décadas atrás, quando os saudosos Mamonas incluíram "Bate o pé" em uma paródia, homenageavam exatamente esse grande sucesso.
Lá nos anos 70, quando tinha menos que 10 anos, uma das coisas que mais ouvia era que eu era parecido com o Roberto Leal. Até meu penteado era parecido. E lógico que a família pedia para eu dançar o "vira", principalmente o grande hit "Bate o pé". E eu, na minha inocência típica de criança, e em meio de uma família tão calorosa e amorosa, como nunca fui exatamente tímido, não tinha como negar o pedido: e dançava, dava os pulinhos, e deixava a família sorrindo.
Quando fui fazer meu pós-doc em Portugal, já em 2009, ouvi dos "professores doutores" de lá que Roberto Leal era ridicularizado porque cantava músicas simplórias, pois era considerado por eles algo como o "brega" daqui. E, sinceramente, ao ouvir isso, tive ainda mais orgulho da minha origem e passei a admirar ainda mais o Roberto Leal. Pois o Roberto não queria posar de cult, fazer músicas elaboradas: ele sabia que a missão dele era matar as saudades dos portugueses pobres que tiveram que imigrar para o Brasil. Roberto Leal não cantava para os ricos de Lisboa; cantava sim para os pobres que imigraram sem nada, vindos do interior, como meus familiares lá de Trás-os-montes, de onde veio também Roberto Leal. E foi por isso que estourou no Brasil de imigrantes simples portugueses.
Bom, infelizmente o Roberto Leal nos deixou no dia 15/09/2019. Quem tem menos de 30, talvez não tenha a dimensão da importância que esse cantor teve nos anos 70. E, principalmente, de quanta felicidade ele trouxe para essa imensa massa de imigrantes portugueses.
Obrigado, Roberto Leal, por tudo que fez para a colônia portuguesa e seus descendentes como eu!

Veja também, posts sobre outros que nos deixaram:
Tim Maia
Tancredo: um choro de 30 anos!
Thatcher: quando a extrema direita ajuda os trabalhadores
E, enfim, o Chavez se calou!
Gandhi: um filme incrível sobre uma pessoa extraordinária
Um ícone do Brasil que nos deixou: Niemeyer
Um nordestino, um favelado e uma história de amor: Luiz Gonzaga e Gonzaguinha
Tristeza pela morte do Chorão
Amy Winehouse - Já era esperado, não há outra saída.
Saudades sertanejas
Os três malandros - saudades
Um país com menos sorrisos (Chico Anisio)
Mário Lago: Um homem extraordinário!
Homenagem aos finados dormindo...
O melhor presidente (Itamar Franco)
Um grande líder (Paulo Renato)
Um exemplo de pessoa (José Alencar)
Um talento único e uma grande vítima! (Michael Jackson)
Trapalhões na luta contra a ditadura
Queen

sábado, 23 de dezembro de 2017

De quem é a Mercedes?

O cara rala, trabalha sem parar por décadas, e enfim consegue o que sempre sonhou: uma Mercedes conversível. Mas na correria do dia a dia, a bela Mercedes fica 90% dos dias parada na garagem da empresa, cuidadosamente coberta com um tecido personalizado para que se conserve.
Para que mesmo ele queria comprar a Mercedes? Para que gastar centenas de milhares de reais para deixar parado em uma garagem a maior parte do tempo?
Bom, o cara pode não se aproveitar da Mercedes que ele sempre sonhou. Mas alguém se aproveita diariamente, quase o dia todo. Alguém dorme quase todo dia em cima da capota. Em dias frios, prefere dormir por baixo, bem protegido. Tem horas que até posa para foto.
É bom sempre entendermos isso: para que queremos uma coisa? É para nós, ou para outro?